Archivos março 2008

Papagaio-De-Vintém

| Sin comentarios | Sin trackbacks

papagaiodevintem.jpg

A camisa asa negra do Mengão.

O Flamengo foi fundado em 17 de novembro de 1895 (data antecipada para 15 de novembro, a fim de coincidir com o feriado da República), exclusivamente como clube de regatas. Seu primeiro uniforme era ouro e azul - apenas a falta dos tecidos obrigou os sócios a adotarem o vermelho e preto, abundante na cidade.


Oscar Cox trouxe o futebol para o Rio de Janeiro e, em 1902, criou o Fluminense Football Club. Outros clubes dedicados ao esporte bretão surgiram no encalço: Botafogo (havia também outro Botafogo, de regatas), América, Bangu, todos de 1904. Flamengo e Vasco, no entanto, mantiveram-se fiéis ao remo.


Era prática comum, naquele início de século XX, Flamengo e Fluminense dividirem esportistas entre si. No Flamengo, disputavam regatas; no Fluminense, praticavam futebol. A cisão permaneceu até 1911, quando atletas tricolores, insatisfeitos, fundaram o departamento de futebol rubro-negro.


Outros tempos, porém: os remadores não permitiram que os boleiros usassem o uniforme oficial, de listras horizontais em vermelho e preto. Assim, inventaram a camisa composta de quatro quadrantes alternados nas cores do clube, que ficou pejorativamente conhecida como "papagaio-de-vintém", uma vez que o Flamengo não ganhou partida alguma enquanto a vestia - acabou substituída pela cobra-coral, com listras brancas intercaladas entre as rubro-negras.


Em 1995, nas comemorações do seu centenário, o Flamengo decidiu ressuscitar a "papagaio-de-vintém". Resultado: novamente, apenas derrotas.


Agora, enquanto o clube e a Nike vivem sob fogo cerrado, cada parte acusando a outra de qubra de contrato, eis que a amaldiçoada camisa reaparece! Homenagem ao remo, terceiro uniforme, nova fonte de arrecadação e outras desculpas esfarrapadas da diretoria, que não percebe o óbvio ululante:


A papagaio-de-vintém é muito azarada! Párem de usá-la de vez! Ontem, para confirmar o retrospecto negativo de NENHUMA vitória com camisa, o Flamengo empatou em 0 a 0 com o Madureira!

Nareba

| Sin comentarios

olhaanapa!.jpg
Sarkozy, baixote de peito estufado: o próprio Galo da França!

Carla Bruni derrubou a popularidade de Nicolas Sarkozy - estranha República francesa, que prefere os "cidadãos" às mulheres e ao amor! O Champs Elysées também se viu em polvorosa com a foto nua da primeira-dama que foi à leilão pouco antes da visita ao Reino Unido.

A Sra. Sarkozy já declarou que não acredita no casamento e na monogamia, possui algumas centenas de imagens eróticas espalhadas pela internet e em breve comecará a divulgação de seu novo álbum. Nada, a princípio, que se adeque às funções e aos protocolos de Estado.

Pela foto (que roubei do globo.com), no entanto, Carla Bruni está se saindo bem. Melhor que Sarkozy, cujo nariz pornográfico avança sexualmente em direção à esposa.

Será o nariz comprido assim para fazer sombra ao... Enfim. Sarkozy tem algum charme desconhecido por nós, que Bruni viu e gostou?

Galo Centenário

| Sin comentarios | Sin trackbacks

atleticomg.gifAtlético-MG: Galo forte e vingador!

A grandeza de um clube se mede pelos seus adversários. Na década de 80, a única equipe que pôde enfrentar o Flamengo de Zico (e companhia) foi o Atlético-MG, que hoje completa 100 anos de vida.


Final do Campeonato Brasileiro de 1980. Mais de 154 mil rubro-negros no Maracanã. A vitória dava o primeiro título ao Flamengo. O empate, o bi-campeonato ao Atlético-MG - que havia, injustamente, perdido para o São Paulo, três anos antes, terminando invicto a competição.


De um lado, Zico, Júnior, Leandro, Adílio, Andrade, Paulo César Carpeggiani, Tita, Nunes. Do outro, João Leite, Éder, Toninho Cerezo, Luisinho, Reinaldo. Os melhores times do futebol brasileiro se enfrentavam. A decisão mais emocionante da História.



Flamengo Paixão, de David Neves.


O Flamengo esteve por duas vezes na frente do placar, mas o Atlético-MG buscou o empate com Reinaldo, já machucado e manco. Próximo do fim, Nunes arrancou pela esquerda da grade área e, sabe-se como, descobriu o canto do goleiro João Leite. 3 a 2 Flamengo, primeiro dos cinco títulos nacionais.


No ano seguinte, Flamengo e Atlético-MG voltaram a se encarar pela Libertadores da América. Empatados na liderança do grupo, realizaram jogo extra no Serra Dourado, em que josé Roberto Wright expulsou quatro jogadores do Galo e terminou a partida. Outra vitória rubro-negra.


Em 1987, na semi-final da Copa União, Renato Gaúcho partiu do meio-campo, driblou João Leite e garantiu mais um 3 a 2 para o Flamengo sobre o rival. O quarto título brasileiro viria com a vitória de 1 a 0 no Inter-RS.


Embora sem conquistar o título nacional, o Galo foi o único desafiante da hegemonia rubro-negra ao longo dos anos 80. Foi o primeiro campeão brasileiro, em 1981, e ainda vice em 1977 e em 1999. Possui a maior quantidade de títulos mineiros, incluindo o hexacampeonato entre 1978 e 1983 (mais longa seqüência no futebol profissional do estado, apenas superado pelo decacampeonato de América-MG na década de 20).


Parabéns ao Atlético-MG!

I'm Not There

| Sin comentarios


Não Estou Lá, 2007, de Todd Haynes.

Do globo.com:

O lendário músico americano Bob Dylan deu um passeio de bicicleta disfarçado de mulher pelo balneário uruguaio de Punta del Este, onde encerrou na noite de quinta-feira (20) sua turnê pela América Latina, "Never ending tour".

"Ele aproveitou o clima bom e a tranqüilidade do balneário (140 km de Montevidéu) e saiu para dar um passeio de bicicleta, disfarçado de mulher para evitar a perseguição de fanáticos e da imprensa", informou o setor de relações públicas do Hotel Conrad.

O cantor já saiu para passeios parecidos, como no início da turnê, quando praticou boxe em um famoso ginásio da Cidade do México, onde conviveu com pugilistas, alunos e funcionários do local, sem que ninguém o reconhecesse. Para isso, ele não teve necessidade de modificar completamente sua imagem.

Após as pedaladas na costa atlântica, Dylan pediu, em seu camarim, alimentos orgânicos para o camarim.

Ou seja, Bob Dylan se vestiu de Cate Blanchett no Uruguai!

Nota de Rodapé

| Sin comentarios

Anthony Minghella faleceu aos 54 anos. Surpreendente. Fiquei chocado ao descobrir pelo IMDB.

Gosto de O Paciente Inglês, detesto os outros filmes do cineasta.

Chamar o post de "nota de rodapé" soa depreciativo, é verdade. Nada tenho contra Minghella. Até escreveria algo maior a respeito de sua obra. No entanto, estou me dedicando ao luto que realmente me interessa.

Pois hoje também morreu o grande Arthur C. Clarke. Amo o cinema devido a ele e a Kubrick.

Escorpião

| Sin comentarios

hades0126.jpg
O rapto de Perséfone por Hades.

Nasci em 29 de outubro, portanto, segundo a mais antiga ciência do mundo - que, assim como a mais antiga profissão do mundo, continua firme e forte -, sou do signo de escorpião (com ascendente em gêmeos e lua em câncer).

De todas as inúmeras histórias e lendas que envolvem escorpião, minha favorita é o seqüestro de Perséfone dor Hades. Observando as ninfas que brincavam no bosque, Hades, invisível sob a terra devido a seu capacete, apaixonou-se por Cora, A Jovem, filha de Deméter, deusa da agricultura. Raptou-a para o Tártaro, onde ela, sem opção, transformou-se em sua esposa, Perséfone. No entanto, a pedido de Zeus, Hades consentiu que Perséfone passasse oito meses do ano com Deméter, cuja tristeza pelo desaparecimento da filha trouxera aridez e seca aos campos. Nos outros quatro meses, enquanto a Senhora do Tártaro está ao lado do marido, Deméter se recolhe, e a fome se abate sobre os homens.

Por amor, Hades condena à humanidade à fome e à morte. Nada fala melhor sobre escorpião.

Orgulho-me, confesso, de dividir o signo com Dostoiévski, o maior de todos os escritores. Defendo a tese de que só se precisa ler Crime e Castigo ao longo da vida, tudo está lá. Mas, claro, há outros autores escorpianos ilustres: Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, Rachel de Queiroz, Graciliano Ramos, Rui Barbosa, José Saramago, Roland Barthes, Paul Valéry, Albert Camus, Andre Gide, Ezra Pound, Erasmo de Roterdã, Voltaire, Lutero, Sylvia Plath.

Só uma mulher de escorpião morderia o futuro marido ao conhecê-lo, como fez Sylvia Plath com Ted Hughes.

Na música, são poucos: lembro-me de Vincenzo Bellini, Domenico Scarlatti, Alexander Borodin, Johann Strauss Jr. (sim, o do Danúbio Azul) e Georges Bizet.

Nas artes plásticas, há Pablo Picasso, René Magritte, Auguste Rodin, Francis Bacon, Claude Monet.

No cinema, só os diretores: Luchino Visconti, Martin Scorsese, Michael Cimino, Ang Lee, Peter Jackson, Julian Schabel, Mike Nichols, Louis Malle, Paulo César Saraceni, Henri Georges-Clouzot, Bernhard Wicki, Kon Ichikawa (aliás, faleceu mês passado), Abel Gance, Arnaud Desplechin, Hong Sang-Soo. De memória, são esses.

Abaixo, segue texto que encontrei na internet. Não sei quem escrevei, mas há palavras que me seduziram: vida / morte, transformação, tudo / nada, sexo, intensidade. Mas, antes, deixo também a Marte, O Portador da Guerra, da Suíte Os Planetas, de Gustav Holst. Compositor e astrólogo, ele se baseou nos arquétipos do zodíaco - na música, a primeira parte se refere à áries, a segunda à escorpião.

Quem adora Marte, O Portador da Guerra é John Williams, que a copiou no Tema de Darth Vader, em O Império Contra-Ataca.



Marte, O Portador da Guerra. Suíte os Planetas, de Gustav Holst.


Planeta: Plutão, o mensageiro do cosmos, isso o faz genial e brilhante, dono de uma incrível capacidade para trabalhar e fazer valer seus argumentos. Também representa o princípio da autoridade, da organização, dos recursos internos e da sexualidade. Também tem como co-regente o planeta Marte.

Qualidade: Fixa, estável e fluente.

Elemento: Água. Elemental: Ondinas e sereias.

Estação: O meio do outono.

Dia: Terça-feira.

Cor: Vermelho, escarlate, vinho, vermelho escuro, preto, azul, cinza e prateado.

Mineral: Água marinha, opala, obsidiana, rubi, kunzita, ágata, ágata de fogo e topázio.

Metal: Ferro.

Vegetal: Plantas espinhosas, picantes e venenosas, orquídea, a rosa-da-china (simboliza o amor voluptuoso), flor do limoeiro (expressão do desejo), avenca (representa o "sigilo") e o jacinto silvestre.

Chakra: 1º e 2º.

Aroma: Almíscar, ópio, pinho, hortelã e eucalipto.

À mesa: Drinks requintados e boa culinária, são o seu forte. Devem evitar alimentos excitantes e defumados e ingerir muita água.

Nota musical: Mi Maior e Dó Sustenido Menor.

Arcanjo: Samael.

Plano de vida: Astral.

Regente esotérico: Marte.

Missão esotérica: Enfrentar a hidra de nove cabeças.

Casa 8: É a casa das transformações, do renascimento, do sexo, dos impostos, das heranças e dos empréstimos. Crise, morte, transmutação, sonhos e faculdades extra-físicas; doações, fortuna do cônjuge e dos associados; o oculto, o astral, a magia, o tipo de morte em vidas passadas; seguros de vida; a afirmação do passado, a transformação da mente, o valor social; é a casa das crises, do sentir profundo e de não sentir-se à altura do nível do outro.

2º eixo Touro - Escorpião: Posse, desejo, poder, controle, necessidade de segurança, necessidade de autocontrole, instinto de sobrevivência; Escorpião - dificuldade de lidar com a perda, excesso de estratégia; Touro - é na puberdade que há uma transformação na voz.

Tarôt: A Morte. Tarôt Cigano: Adaga.

Runas: Tyr, Peorth, Uruz e Othila.

Saúde: Os órgãos genitais (masculinos e femininos), bexiga, vias urinárias e todo o sistema urinário, próstata, uretra, ânus, reto, matéria corante do sangue, nariz, cólon descendente, cóccix, glândulas endócrinas, ovários, testículos, e tem tendência a intoxicações. Qualquer repressão de energia sexual pode provocar atitudes desagradáveis. Eles não resistem a alimentos fortes demais, devem portanto comer ameixas secas.

Aparência: Signo de forte constituição, de pouca beleza e de olhos magnéticos.

Animal: Quadrúpedes grandes e carnívoros e aves de presa.

Profissão: Psicólogo, detetive, policial, químico, médico, açougueiro, empresário, psiquiatra, esotérico, veterinário, agente funerário, biólogo, grafólogo, pesquisador, antiquário, executivo, criminalista, médico legista, especialista em comércio de armas, produtor de cinema, político, administrador, perfumista e todas as atividades que necessitam alto grau de concentração.

Personificação: Signo animal, fértil, mudo e agressivo. Os revolucionários, os mágicos, os bruxos, as pessoas que lidam com o poder, a direção, quem sabe o que quer, quem vai a fundo nas coisas, os políticos e estadistas. Representa a águia e a serpente. Significa a queda e a decomposição das flores, a morte da vegetação, a formação do húmus.

Simbologia: Temido e venerado pelos antigos egípcios, era símbolo da fecundidade e da proteção. No ocidente cristão aparece como representação da inveja e do castigo divino. Apesar disso, está ligado ao número oito, que representa a alma e o equilíbrio.

Mitologia: O signo de Escorpião está associado ao mito de Órion, deus guerreiro. Órion, acreditando em sua superioridade de caçador, resolveu desafiar Diana, a Rainha dos Boques, a fim de verificar quem apanharia maior número de animais ferozes. Diana fez sair da terra um escorpião cuja picada matou Órion em meio a dores insuportáveis. Diana, entristecida, pede a Júpiter que o catasterize, ou seja, que o transforme em constelação. Segundo outra versão, Órion era filho de Netuno e tinha também a faculdade de andar sobre as águas.

Escorpião ascendente em Gêmeos: Capacidade intelectual redobrada, vida amorosa um tanto volúvel, dedicação extrema no que faz e carisma.

Escorpião: "Eu Controlo" - "Eu Desejo". Um infalível poder de sedução...

O signo de Escorpião é a combinação dos seguintes fatores: regência de Plutão em Marte, exílio de Vênus, queda da Lua e, segundo alguns astrólogos, exaltação de Urano.

Escorpião é dos signos que têm um regente antigo ou tradicional (no caso, Marte) e outro moderno (no caso, Plutão). Até 1930, data da descoberta de Plutão, o signo era considerado o domicílio noturno de Marte.

O exame dos acontecimentos mundiais e das tendências mais acentuadas do período concomitante ou próximo à descoberta do novo planeta credenciaram-no como regente de Escorpião, por serem semelhantes à natureza do signo.

O ano de 1930 está no intervalo entre duas guerras mundiais - não que a guerra fosse uma novidade da existência do homem. Aqui, porém, ele chegou a lidar com uma força de destruição jamais antes suspeitada.

Ao mesmo tempo em que dominava o poder de aniquilar, o homem começou a controlar cada vez mais a ciência e as técnicas de reconstrução, da reabilitação, possibilitando o prolongamento do período de vida do ser humano, através de cirurgias e implantes de órgãos e do extraordinário desenvolvimento da genética.

Houve também uma grande difusão do controle de natalidade e de novas técnicas anticoncepcionais.

Todos esses acontecimentos tem um substrato comum - o tema vida/morte, destruição/recriação, fortemente associado ao signo de Escorpião.

Marte, planeta de auto-afirmação, conserva suas prerrogativas de regente neste signo de emoções intensas, determinado e firme.

Urano se exalta em Escorpião; como Plutão, caracteriza-se pelo radicalismo, pela queda de tabus, pelo avanço até as últimas conseqüências, nem sempre escolhendo os caminhos mais suaves.

Já a Lua e Vênus, astros das ligações entre as pessoas, de convívio, de busca do outro, encontram em Escorpião um terreno acidentado.

Aqui, o ciúme é capaz de asfixiar a confiança, fundamental para a relação bem sucedida; a reserva e o ressentimento podem inibir o contato. Hábeis na conciliação e na adaptação, a Lua e Vênus estão longe de casa neste signo do tudo ou nada.

Aqui está um dos mais notáveis casos de predominância do personagem feminino na formação da personalidade. A figura materna é de tal força e intensidade que acaba dominando a maioria das experiências existenciais de quem nasce nesse signo.

Pode se conjeturar que, durante os primeiros anos de vida dessa pessoa, incluindo-se a fase anterior ao nascimento, a mãe tenha vivido algum tipo de perda, seja de uma pessoa querida, seja de um sonho ou fantasia.

Esse tipo de experiência tende a ser projetada na criança sob a forma de censura, de proibição de que ela também seja um motivo de perda.

Em outras palavras, a pessoa de Escorpião é proibida desde a infância de viver experiências transformadoras. Mudar, para ela, é algo perigoso, que ela jamais ousa.

Esta prevalência do modelo materno muitas vezes isola quem é desse signo de um contato mais pleno e real com o próprio lado masculino, trazendo as conseqüências obvias de ausência de um modelo de ação e de conquista.

Este é um tipo bastante forte para controlar o fogo de uma paixão, e mesmo que pressinta o perigo de se envolver numa relação apaixonante e forte, nem sempre conseguirá desviar seu coração de uma atração fatal. Morrer e renascer são seus fundamentos básicos, ou seja, a regeneração e o sacrifício.

Os pensamentos profundos e a sexualidade também se impõem. Em casos extremos, os escorpianos podem ser cruéis e violentos. É o signo da transformação e é também um signo cármico com vidas passadas, com as raízes, com a família e com o sexo.

O nativo de Escorpião é profundo e misterioso, reservado e não gosta de se expor. Sabe apreciar as coisas boas da vida e possui uma sensibilidade aguçada.

Dá muita importância a contatos com os outros, só que o motivo é sua eterna busca pela essência das coisas. Intenso e apaixonado, joga-se de cabeça em tudo. Não é à toa que todos se sentem atraídos por ele.

Tem personalidade forte e é intransigente com quem se opõe à sua vontade. Também deve controlar a teimosia.

Dinamismo: Grande disponibilidade para atuar em todos os setores de existência que exigem uma emotividade (água) resistente e imobilizada (fixo), isto é, que exige sangue frio, risco calculado e autocontrole, porém mais levando a consciência da própria força e poder interiores (frio) do que o mundo oferece (feminino), que por sua vez, é freqüentemente visto com uma certa indiferença, por vezes espontânea, por vezes assumida.

Integração agressiva e passional na existência (Marte), onde a grande força de trabalho sempre disponível se revela não só pela combatividade sistemática (fixo e Marte), mas também pela inteligência sistemática (Urano) que leva à analise sutil, à estratégia e ao julgamento imparcial (Plutão).

Há uma disposição de existir como um todo, para ir direto aos objetivos com determinação e firmeza ou instintiva auto-suficiência, que faz com que o sujeito sempre esteja transpassando obstáculos e se recriando (Plutão) como conseqüências.

O gosto do paradoxal e do grotesco, bem como o desprezo pelo preconceito (Urano) não raro, está na base de inadaptações nos estilos conformistas e esperançosos de comportamento (exílio de Vênus) e de aceitação da existência baseada na manutenção de algum automatismo (Lua).

Disto resulta freqüentemente uma instintiva (água, fixo) disposição ao idealismo masoquista ou ao realismo sádico ou a uma coexistência de ambas que está na base de muitas tendências degeneradoras.

Os conflitos são estruturados num nível de posse e poder (cruz fixa), enquanto que as soluções podem ser estruturadas num nível de investigação de condicionamentos piscianos (ou ocultos, ou insidiosos) trígono de água.

Existem três tipos de Escorpião:

Tipo A: "comum ou típico", realismo sádico, prevalência da impulsividade sobre a inibição. Neste caso podemos ter uma disposição individualista, rebelde, indisciplinada, refratária aos costumes sociais, etc. Firmeza, coerência de atitudes e constância moral, é um tipo criador.

Tipo B: "incomum", tipo virgem, idealismo masoquista, prevalência da inibição sobre a impulsividade, ou seja, bloqueio da vida instintiva. Natureza disciplinada, ordenada, pontual, ligada aos princípios, a formalidade, mais crítico do que criador.

Tipo C: "ambivalente", neste caso, alternância ou coexistência dos tipos anteriores, por exemplo: fisicamente limpo - sujeira moral; crítico - criador; ordenado - desordenado; coexistência ou alternância da impulsividade ou inibição.

Tradicionalmente associado ao poder, escorpião é o signo mais misterioso do zodíaco. Simbolizando o lado profundo e regenerador da vida, este signo tem relação com o sexo: a ação de penetração e fusão é uma característica marcante de escorpião.

É também através do ato sexual que uma nova vida é gerada, e o ato de nascer e renascer fazem parte do eterno ciclo de vida - morte - renascimento, que também está associado ao signo de escorpião.

Entre os seus símbolos, temos a figura do próprio escorpião - apontando a sua natureza inferior, cruel, implacável e traiçoeira - e a fênix, a ave renascida das cinzas que alcança grandes alturas - simbolizando sua natureza superior, transcendente, regeneradora, espiritual.

Escorpião encerra uma imensa possibilidade oculta. É o tesouro enterrado das histórias de piratas, mas para se atingir as profundezas interiores e encontrar este ouro é necessária uma espécie de morte, uma explosão, um cataclisma.

E é preciso que seja assim: a pressão interior é muito maior que a exterior, e acessá-la acarreta uma liberação emocional com intensos poderes.

Podemos associar escorpião à metamorfose da lagarta em borboleta, ao petróleo e às demais riquezas encontradas no interior da terra, e também ao vulcão que libera a lava que fervilha nas profundezas tectônicas.

Em todos estes processos existe uma liberação de energia através da ruptura da casca, o que pode revelar um tesouro ou apenas a lava emocional.

Governando áreas tão complexas e profundas, escorpião não poderia lidar com a vida de uma forma leve e descomprometida.

Quando se identifica com um relacionamento ou com uma causa, ele irá se envolver até a alma; ele irá se "fundir" à situação. É por sentir a vida neste nível de profundidade que os escorpianos costumam ser reservados e discretos com relação às suas motivações.

Caso não estejam emocionalmente envolvidos com a causa, podem evitar a confrontação mais direta, mas caso sejam atacados em pontos a que se liguem emocionalmente, entrarão em guerra para afirmar sua motivações.

E aqui reside uma questão interessante deste signo: quando em conflito, escorpião nunca entra numa batalha, mas sim numa guerra. E neste processo eles atacarão sem piedade e não esperarão nenhuma.

A intensidade deste signo é responsável pela sua característica de transformação. Escorpião está associado a metamorfose, bem como às cirurgias e é claro que o ato de transformar-se demanda uma completa "cirurgia emocional ou mental". Regido por Plutão, este signo rege as sementes e o próprio sêmen.

Também rege a energia atômica e as explosões nucleares. É o poder da vida e da morte concentrados num simples ponto, num grão, num átomo.

Assim é escorpião. regendo o ponto mais recôndito da existência, o Tártaro de Plutão, podemos ver que este ponto é muito pequeno, um quase nada. E nele se encerra o segredo da vida e da morte, que cria e recicla todo o Universo, a imensidão, o Cosmos.

Com tanto poder concentrado, é nesta região do zodíaco que devemos buscar nossa chance de transcendência. Mas este é sempre um jogo complexo, arriscado, de vida - morte, onde a velha pele será sacrificada. mas das cinzas emergirá a fênix refulgente, alçando o seu vôo a alturas até então inimagináveis.

Tarefa: A ti Escorpião, darei uma tarefa muito difícil. Terás a habilidade de conhecer a mente dos homens, mas não te darei a permissão de falar sobre o que aprenderes. Muitas vezes te sentirás ferido por aquilo que vês, e em tua dor te voltarás contra mim, esquecendo que não sou Eu, mas a perversão da Minha idéia que te faz sofrer. Verás tanto e tanto do ser humano, que chegarás a conhecer o homem enquanto animal, e lutarás tanto com os instintos animais em ti mesmo, que perderás o teu caminho, mas quando finalmente voltares a Mim, Escorpião, terei para ti o dom supremo da finalidade.

Anton Bruckner

| Sin comentarios

bruckner2.jpg
Anton Bruckner (1824 - 1896).

"Eles querem que eu escreva de forma diferente. Certamente eu poderia, mas não devo. Deus me escolheu entre milhares e me deu, entre todas as pessoas, este talento. É para Ele que eu devo prestar contas. Como então eu poderia ficar perante Deus Todo-Poderoso, se seguisse os outros e não Ele?" - Anton Bruckner.

Há uma anedota conhecida na música clássica, que envolve os três gigantes do pós-romantismo alemão. Diz ela: quando se ouve Bruckner, sabe-se que ele encontrou Deus; quando se ouve Mahler, que ele está à procura de Deus; quando se ouve Richard Strauss, que ele não acredita em Deus.

Amo Mahler e Bruckner. Contento-me com Strauss em 2001: Uma Odisséia no Espaço.

Mahler alcançou merecido reconhecimento no final dos anos 60, sobretudo com as gravações realizadas por Leonard Berstein à frente da Filarmônica de Nova York. Todos os grandes regentes - e os menores também - colocam-se hoje à prova com o ciclo integral das sinfonias mahlerianas, obras que separam os gênios dos medíocres.

No entanto, Mahler se tornou popular. É possível escutar a SInfonia no.1, "Titã", no metrô carioca, embora ela permaneça tão misteriosa, complexa e insondável quanto de sua primeira execução pública no século XIX, recebida a vaias e xingamentos pela atônita platéia vienense.

O culto a Mahler se deve, em parte, à esposa Alma, que propagou a idéia do artista recluso, atormentado, solitário, doente, envolto em tragédias pessoais e cruel na vida profissional. Existe, igualmente, a questão do "profeta" dos novos tempos, cuja música prevê a violência, os contrastes, os absurdos, as rupturas, a dor que grassaria pelo século XX. Sinfonias que lançaram as sementes do dodecafonismo e do atonalismo, embora fossem estritamente clássicas em suas formas e estruturas.

E Bruckner? Antes de Mahler (em Morte em Veneza), também foi tema musical de Luchino Visconti, em Sedução da Carne, com o belíssimo Adagio da Sinfonia no.7 em Mi Maior, sua obra mais popular em vida. Porém, continua nas sombras, à espera de seu momento.


Adagio da Sinfonia no.7 em Sedução da Carne, de Luchino Visconti.

Anton Bruckner é virtualmente impossível de ser classificado. Ele surge, no geral, associado a Mahler, embora a relação entre os dois tenha sido apenas de profunda amizade e, claro, de respeito e de admiração do compositor mais jovem pelo mestre (diferente da crença em geral aceita, Mahler não estudou com Bruckner).

A dificuldade de entender Bruckner passa pela vida do próprio compositor. Ele nasceu na pequena cidade austríaca de Ansfelden, em 4 de setembro de 1824, próxima ao monastério de São Floriano, no qual se tornou organista em 1851. Estudou contraponto com Simon Sechter até os quarenta anos, quando se mudou para Viena, a fim de suceder o antigo professor no Conservatório. Já havia composto Missas colossais, e era profundo admirador de Richard Wagner.

Em Viena, Bruckner se viu na guerra entre os admiradores de Brahms e de Wagner. Foi massacrado implacavelmente pelo crítico Eduard Hanslick, mais importante da época e fervoroso defensor de Brahms. Pior, no entanto, fizeram seus alunos e amigos, para quem o professor era um "mestre sem genialidade": sem compreender quão originais eram as músicas de Bruckner, e no afã de torná-las mais parecidas com as de Wagner e de apresentá-las mais palatáveis ao público, mutilaram-nas, com aprovação do próprio compositor.

Bruckner rejeitou suas duas primeiras sinfoniais. O maestro Otto Dessof teria perguntado, sobre a segunda, "mas onde está o tema principal?", o que devastou o compositor. Mais tarde, quando as reincorporou à sua obra, Bruckner as classificou como Sinfonia no.0 e Sinfonia no.00, para não ultrapassar as nove sinfonias de Beethoven.

Abaixo de Deus, e acima de Wagner, havia Beethoven. Como ele, Bruckner, podia se comparar ao mestre de Bonn?

São os traços mais polêmicos da personalidade de Bruckner. Ele era humilde, reservado, indeciso, influenciável. Jamais abandonou, de fato, a pequena vila em que nasceu, ou o monastério em que se educou. Nada possuía do egocentrismo e da auto-suficiência de Wagner e de Mahler. Promoveu inúmeras versões de suas próprias sinfonias, ora as melhorando, ora as piorando - mas sempre deixou as cópias originais na Biblioteca Nacional, com o singelo lembrete "o tempo delas chegará".

O tempo, justamente, o ponto crucial nas sinfonias de Bruckner. Elas são gigantescas, tanto em duração (quase todas com mais de uma hora), quanto em massa orquestral (o volume sonoro produzido pela orquestra bruckneriana é incomparável, mesmo hoje). São músicas longas, repetitivas, contemplativas, que exigem a entrega dos sentidos e da alma do ouvinte. O compositor nos propõe experiências de intensa fé e espiritualidade através da imersão, pela música, em um tempo divino, completamente fora da vida apressada do cotidiano, das paixões mundanas e das preocupações mesquinhas. E, ao contrário de Mahler, a jornada é segura, pois não há dúvidas ou percalços no caminho desvelado por Bruckner.

Em Bruckner, trata-se da fusão completa com a música, para encontrar a si próprio e a Deus.

Disponibilizo aqui a Sinfonia no.8, em Dó Menor. Houve duas versões, a original, em 1887, e a revisada, em 1890. Esta é a de 1887, e dura 89 minutos e 28 segundos, com 4 movimentos. Orquestra Sinfônica Nacional da Irlanda, sob a regência de Georg Tintner.

Atenção sobretudo ao 3o. Movimento que, junto aos da Sinfonia no.9 de Beethoven e da Sinfonia no.9 de Mahler, é o mais belo Adagio que existe.


boomp3.com
I. Allegro moderato.
17 minutos e 41 segundos


boomp3.com
II. Scherzo: Allegro moderato - Trio: Allegro moderato.
15 minutos e 14 segundos


boomp3.com
III. Adagio: Feierlich lagsam, doch nicht schleppend.
31 minutos e 10 segundos


boomp3.com
IV. Finale: Feierlich, nicht schnell.
25 minutos e 10 segundos

Se Entrega, Corisco!

| Sin comentarios

glaubererosselini.jpg
Glauber Rocha e Roberto Rossellini.

Mais fortes são os poderes do povo!!! (Mas já pensaram Gerônimo no poder?)

69 anos de Glauber Rocha. Que falta ele faz!

Embora duvide que o editais lhe dessem verba para filmar A Idade da Terra, por exemplo.


Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1964.



Terra em Transe, 1967.



O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, 1969.

Dos longas-metragens do Glauber que vi:

1. A Idade da Terra, 1980 - 5.gif
2. O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, 1969 - 5.gif
3. Terra em Transe, 1967 - 5.gif
4. Deus e o Diabo na Terra do Sol, 1964 - 5.gif
5. Câncer, 1972 - 4.gif
6. O Leão de Sete Cabeças, 1971 - 4.gif
7. Barravento, 1961 - 3.gif
8. Cabeças Cortadas, 1970 - 3.gif

PS 1: O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro dialoga maravilhosamente com Caça ao Leão com Arco, do Jean Rouch. Sempre quis escrever a respeito, mas a falta de tempo... Fica a indicação, no entanto.

PS 2: A omissão mais vergonhosa é Claro. Tenho em VHS, só que meu videocassete não funciona mais. Então, Canal Brasil, passe de novo!

A Batalha de Actium

| Sin comentarios

abatalhadeactium.jpg
A Batalha de Actium, de Lorenzo A. Castro.

Anteontem revi as quatro horas e sete minutos de Cleópatra, de Joseph L. Mankiewicz, que o Telecine Cult exibiu na janela correta (2.20:1). O filme é melhor do que me lembrava, mas sobre ele falarei em outro post. Agora, um pouco de História.

Poucas batalhas navais foram tão decisivas quanto a de Actium, travada, no calendário Gregoriano (informação importante), em 2 de setembro de 31 a.C. Ela definiu os rumos da civilização, do Ocidente e do Oriente: marcou a vitória de Otávio Augusto sobre Marco Antônio e Cleópatra e, conseqüentemente, o nascimento do Império Romano.

A morte da República já vinha se desenhando desde o primeiro triunvirato - de Crasso, Pompeu e Júlio César. Com a morte de Crasso, e a ascenção de César com a conquista da Gália, a guerra civil foi inevitável. Os dois maiores generais de Roma se enfrentaram, e Pompeu foi derrotado - buscou exílio no Egito, onde o faraó, irmão de Cleópatra, decapitou-o.

César se tornou ditador perpétuo de Roma, embora o título não lhe garantisse poderes imperiais - ainda necessitava da aprovação do Senado. A aspiração por mais poder, a aliança com o Egito e a adoção de seus costumes, o casamento escandaloso com Cleópatra e o reconhecimento do filho Cesário levaram a seu assassinato, nos idos de março, pelos mais eminentes cidadãos romanos. William Shakespeare, em Júlio César, Ato III, Cena I:

Roma. Diante do Capitólio. O senado está em sessão. Grande multidão na rua do Capitólio, na qual se vêem Artemidoro e o adivinho. Clarins. Entram César, Bruto, Cássio, Casca, Décio, Metelo, Trebônio, Cina, Antônio, Popílio, Públio e outros.

CÉSAR (Ao adivinho) -- Chegaram os idos de março.

ADIVINHO -- É certo, César; porém ainda não passaram.

ARTEMIDORO -- Salve, César! Lê este pedido.

DÉCIO -- Trebônio pede que esta humilde súplica mais de espaço por vós seja atendida.

ARTEMIDORO -- Ó César! lê primeiro a minha, que ela toca a César de perto. Grande César!

CÉSAR -- Com o que nos diz respeito não há pressa.

ARTEMIDORO -- Não demores, ó César! Lê depressa.

CÉSAR -- Como! É louco esse tipo?

PÚBLIO -- Sai, maroto! Arreda do lugar!

CÉSAR -- Que é isso? Todos apresentam na rua as petições? Entrai no Capitólio.

(César sobe para o senado; os demais o seguem. Os senadores se levantam.)

POPÍLIO -- Desejo que sejais bem sucedido no empreendimento de hoje.

CÁSSIO -- Não compreendo, Popílio, essas palavras.

POPÍLIO -- Passai bem.

(Vai para perto de César.)

BRUTO -- Que vos disse Popílio Lena?

CÁSSIO -- Votos para que nosso empreendimento de hoje seja bem sucedido. Tenho medo de que hajam descoberto nosso plano.

BRUTO -- Observai bem como ele fala a César.

CÁSSIO -- Casca, há urgência; receio, que possamos ser nisso antecipados. Bruto, que há de fazer-se? Se falharem nossos planos, ou Cássio ou César ficará sem vida, pois é certo eu matar-me.

BRUTO -- Sede firme, Cássio; Popílio Lena não lhe fala de nosso empreendimento. Está sorrindo, sem que César altere a compostura.

CÁSSIO -- Trebônio tem noção do tempo. Vede, Bruto, como ele afasta Marco Antônio.

(Saem Antônio e Trebônio. César e os senadores se sentam.)

DÉCIO -- Metelo Címber onde esta? Que venha apresentar a César seu pedido.

BRUTO -- Está pronto; fiquemos perto dele, a fim de secundá-lo.

CINA -- Sereis vós, Casca, o primeiro a levantar o braço.

CASCA -- Estamos prontos? Não há queixa alguma que César e o Senado atender possam?

METELO -- Muito alto, mui glorioso e forte César, Metelo Cfmber joga ante o teu sólio um coração humilde. (Ajoelha-se.)

CÉSAR -- Antes de tudo, Címber, quero advertir-te: essas zumbaias e esses salamaleques porventura a um homem baixo o sangue agitar podem e mudar uma ordem já emitida e uma sentença séria em lei de criança. Não sejas tolo de pensar que César tem sangue tão rebelde, que se deixe esbulhar de sua força verdadeira pelo que os tolos enternece, apenas. Por isso entendo essas palavras doces, reverências servis e essas carícias de cão adulador. Teu irmão se acha banido por decreto. Se te agachas, e acaricías, e por ele pedes, expulso-te daqui como a um cachorro. Deves saber que César não é injusto e que ninguém, sem causa suficiente, consegue demovê-lo.

METELO -- Não há voz mais valiosa do que a minha que aos ouvidos do grande César soe mais agradavelmente, para a volta do meu banido irmão?

BRUTO -- Beijo-te as mãos César, mas sem lisonja, desejando que Públio Címber possa em breve tempo no gozo entrar de plena liberdade.

CÉSAR -- Como? Bruto!

CÁSSIO -- Perdão, César! Perdão! A esses pés se ajoelha, humilde, Cássio, para a volta pedir de Públio Címber.

CÉSAR -- Se eu fosse vós, pudera comover-me. Se eu soubesse pedir, também seria maleável aos pedidos. Mas sou firme como a estrela do norte, cuja essência constante e inabalável não encontra paralelo no vasto firmamento. Ornam os céus inúmeras faíscas, de fogo todas e indizível brilho; mas uma apenas de lugar não muda. Assim, no mundo: de homens está cheio, homens de carne e sangue e inteligência. Mas, em tamanha cópia, um só, conheço que, inatacável, seu lugar não deixa, sempre surdo a pedidos: sou esse homem. Deixai-me, pois, mostrar agora um pouco que, ao banir Címber, fui constante, como constante sou, no exílio conservando-o.

CINA -- Ó César!...

CÉSAR -- Fora daqui! Queres virar o Olimpo?

DÉCIO -- Grande César!...

CÉSAR -- Bruto não se ajoelhou sem obter nada?

CASCA -- Braços, falai por mim.

(Apunhalam César.)

CÉSAR -- Et tu, Bruto? Então, que morra César. (Morre.)

CINA -- Morreu a tirania! Liberdade! Proclamai pelas ruas! Liberdade!

CÁSSIO -- Suba alguém às tribunas e proclame "Independência, liberdade e ordem!"

BRUTO -- Senadores e povo, ficai calmos; não precisais revelar medo; a dívida da ambição já foi paga.

CASCA -- Sobe ao púlpito, Bruto.

DÉCIO -- Cássio também.

BRUTO -- Onde está Públio?

CINA -- Aqui, de todo desolado, à vista dos acontecimentos.

METELO -- Ficai juntos, para que não se dê que um dos amigos de César...

BRUTO -- Não falemos disso agora; nada de ficar juntos. Públio, anima-te! Ninguém pensa em fazer-te mal algum, nem a qualquer romano. Ide dizer-lhes isso mesmo.

CÁSSIO -- Convém deixar-nos, Públio, para evitar que o povo, ao atacar-nos, vos cause dano às cãs.

BRUTO -- Sim, fazei isso, e que não chame a si ninguém esse ato, senão nós, seus autores.

(Volta Trebônio.)

CÁSSIO -- Onde está Antônio?

TREBÔNIO -- Em casa, estupefacto. Pais, mães e filhos olham-se perplexos, correm em gritos, como se estivéssemos no dia do juízo.

BRUTO -- Fado, mostra o que de nós pretendes. Que haveremos de morrer, já o sabemos; é só o tempo e a sucessão dos dias que a esse ponto deixa os homens aflitos.

CASCA -- Quem vinte anos tira da vida, encurta de igual tempo o medo de morrer.

BRUTO -- Se isso aceitarmos, ficará sendo a morte um benefício. De César somos, desse modo, amigos, pois o medo da morte encurtamos. Romanos, abaixai-vos! Abaixai-vos! Os braços mergulhemos neste sangue e com ele tinjamos as espadas. Sangue é de César. Depois disso, vamos à praça pública e, agitando os gládios en­san­guen­ta­dos, a uma voz gritemos: "Independência, paz e liberdade!"

CÁSSIO -- Abaixai-vos, então, e as mãos tingi. Quantas vezes, nos séculos vindoiros, há de ser posto em cena nosso feito sublime, em povos por nascer e línguas ainda não constituídas!

BRUTO -- Quantas vezes sangrará por brinquedo o grande César, que aos pés da estátua de Pompeu se encontra valendo quanto o pó.

CÁSSIO -- Todas as vezes que isso se vir, de nós dir-se-á que fomos os que demos à pátria liberdade.

DÉCIO -- Como é, vamos ou não?

CÁSSIO -- Vamos, reunidos. À testa marche Bruto; nós os passos lhe enfeitaremos com romanos peitos de ousadia e firmeza inigualáveis.

(Entra um criado.)

BRUTO -- Quietos. Vem vindo alguém. Ah! É um amigo de Marco Antônio.

CRIADO -- Bruto, desse modo me ordenou meu senhor que eu me ajoelhasse, e assim, prostrado, me ordenou dizer-vos: Bruto é valente, nobre, sábio e honesto; César foi grande, altivo, real e bom. Dize que eu amo a Bruto e sei honrá-lo. Dize-lhe mais que a César eu temia, amava e honrava. Permitindo Bruto que, salvo, Antônio dele se aproxime, para saber de que maneira César mereceu essa morte, Marco Antônio não há de amar César defunto tanto quanto Bruto com vida, mas, fielmente, há de seguir as obras e o destino do nobre Bruto em todos os azares deste estado de coisas não trilhado. Assim falou meu amo Marco Antônio.

BRUTO -- Romano bravo e sábio é o teu senhor. Nunca o julguei ruim. Dize-lhe que se for do agrado dele vir até aqui, far-lhe-ei nisso a vontade, asseverando, sob palavra de honra, que partirá ileso.

CRIADO -- Vou buscá-lo. (Sai.)

BRUTO -- Sei que ele há de ficar sendo um dos nossos.

CÁSSIO -- É o que desejo; mas em mim se agita algo que o teme, e meus pressentimentos, por desgraça, são sempre confirmados.

(Volta Marco Antônio.)

BRUTO -- Eis Marco Antônio. Sê bem-vindo, Antônio.

ANTÔNIO -- Ó poderoso César! Tão por baixo! Todas as tuas glórias, as conquistas, teus espólios e triunfos, a medida tão pequena ficaram reduzidos? Adeus! Não sei o que pensais, senhores, sobre os que ainda devem perder sangue, por ter sangue demais. Se achais preciso que eu o derrame, hora não há melhor do que esta em que deixou de viver César, nem instrumento que em valor se iguale ao de vossas espadas, ora ricas do sangue mais precioso deste mundo. Suplico-vos, no caso de me terdes como suspeito, executai o intento sem perda de um instante, enquanto as rubras mãos ainda vos fumegam. Se eu vivesse mil anos, impossível fora achar-me tão apto para morte como agora. Nenhum lugar me agradaria tanto para morrer, nem gênero de morte, como junto de César, sendo eu morto pelos maiores homens de nossa época.

BRUTO -- Não nos peças, Antônio, morte alguma. Embora pareçamos sanguinários neste momento, e cruéis, como nos mostra o ato por estas mãos levado a termo, vedes apenas nossas mãos e a empresa sanguinosa por elas realizada. Os corações não vedes; mas são todos compassivos. Assim, foi a piedade -- tal como o fogo é pelo fogo expulso, a piedade à piedade dá combate -- que em César isto fez. Nossas espadas, para vós, Marco Antônio, são de chumbo. Nestes braços, isentos de malícia, e em corações de fraternal afeto, vos acolhemos com amor sincero, reverência e intenções em tudo retas.

CÁSSIO -- E na distribuição das dignidades nenhuma voz será mais poderosa do que a vossa.

BRUTO -- Pedimos-vos paciência, tão-somente, até ver se conseguimos acalmar este povo, que, de medo, ficou fora de si. Depois, diremos porque eu, que amava César ao golpeá-lo, me decidi a realizar este ato.

ANTÔNIO -- Vossa sabedoria me conforta. Dêem-me todos, agora, as mãos sangrentas. Primeiramente, Marco Bruto, a vossa; agora a vossa, Caio Cássio; o mesmo faremos, Décio Bruto; vós Meteleo; vós, também, Cina; vós, valente Casca, e vós, meu bom Trebônio, conquanto o último não o menos querido. Cavalheiros... Ai de mim! Que direi? Neste momento minha reputação se acha em terreno tão escorregadio, que é forçoso verdes-me por dois prismas igualmente deformadores: ou como covarde, ou como adulador. Que eu te votava, César, amor sem par, oh! é verdade. Se nos contempla agora o teu espírito, não será para ti mais doloroso que a própria morte, veres teu Antônio fazer as pazes com teus inimigos -- ó nobre César! -- diante de teu corpo? Se tantos olhos eu tivesse quantas feridas em ti vejo, porque todos lágrimas derramassem como o sangue que delas ora escorre! Melhor fora para mim, do que ter com teus inimigos concluído assim um pacto de amizade. Perdão, meu Júlio. Como foste acuado, bravo cervo! Tombaste neste ponto; teus caçadores aqui mesmo se acham, do espólio opimo altivos, e ainda rubros das águas do teu Lete. Ó mundo, foste deste cervo a floresta, bem como ele, teu próprio coração. Oh mundo! Como pareces onde te achas, uma caça por fidalgos altivos abatida!

CÁSSIO -- Marco Antônio...

ANTÔNIO -- Perdoa, Caio Cássio. Poderiam ser ditas tais palavras por inimigos de César; proferidas, porém, por um amigo, ainda revelam muita moderação.

CÁSSIO -- Não vos censuro por elogiardes César desse modo. Mas como pretendeis ficar conosco? No número incluído dos amigos? Seguiremos avante, sem que em nada dependamos de vós?

ANTÔNIO -- Para isso mesmo apertei-vos as mãos; mas esqueceu-me no instante de ver César. Sou amigo de todos vós, e amor a todos voto, esperando que haveis de revelar-me porque e como era César perigoso.

BRUTO -- Se não o fosse, isto tudo não passara de espetáculo selvagem. Tão razoáveis são os motivos que ora nos dirigem, que embora fosseis, Marco Antônio, filho de César, ficaríeis satisfeito.

ANTÔNIO -- Não desejo outra coisa. Mas quisera também a permissão de pôr o corpo na praça do mercado e, como amigo do morto, discursar na cerimônia.

BRUTO -- Pois não, Antônio.

CÁSSIO -- Bruto, uma palavra. (À parte, para Bruto) Não lhe deis permissão de ir à tribuna, durante os funerais. Fazeis idéia de como o povo poderá deixar-se mover por seu discurso?

BRUTO -- Perdão, Cássio; mas eu, primeiro, falarei de público, para as razões expor do passamento do nosso César. Quanto Marco Antônio disser depois, explicarei, é feito com nossa permissão e inteiro acordo. E mais: que permitimos tenha César todas as honras fúnebres e os ritos que a lei faculta aos mortos Tiraremos de tudo mais vantagem do que dano.

CÁSSIO -- Quem sabe o que daí resultar pode? Nada disso me agrada.

BRUTO -- Marco Antônio, aqui tendes o corpo. No discurso fúnebre não deveis lançar nenhuma censura sobre nós. Dizei de César todo o bem que quiserdes, explicando que permissão vos demos para tanto. A não ser isso, ficareis excluído das cerimônias fúnebres. E ainda: será vossa oração dita da mesma tribuna em que eu falar, quando concluído eu tiver o discurso.

ANTÔNIO -- Mais do que isso não desejo. Está bem.

BRUTO -- Prepara, então, o corpo e vem conosco.

(Saem todos, com exceção de Antônio.)

ANTÔNIO -- Ó pedaço de terra a verter sangue, perdoa o revelar-me humilde e brando com estes carniceiros! És a ruína do mais nobre homem que jamais vivera na corrente do tempo. Ai, ai da mão que fez correr tão precioso sangue! Faço uma profecia em face destas feridas que, de bocas mudas, abrem os lábios de rubi para pedir-me à lingua voz e fala: sobre os homens pesará maldição, lutas internas e uma guerra civil das mais terríveis todas as partes encherão da Itália; o sangue e a destruição de tal maneira ficarão familiares, que somente há se sorrir as mães perante a vista dos filhos massacrados pela guerra; asfixiada a piedade vai tornar-se pelo hábito do crime, e o grande espírito de César, sequioso de vingança, com Ate ao lado, rubra ainda do inferno, em tom de mando gritará por todos estes confins: "Nenhum quartel!" enquanto desprende os cães da guerra. Este ato horrível emprestará a terra de cadáveres que reclamam condigna sepultura. (Entra um criado.) Servis a Otávio César, não é isso?

CRIADO -- Perfeitamente, Marco Antônio.

ANTÔNIO -- César lhe havia escrito que viesse a Roma.

CRIADO -- Recebeu sua carta e está em caminho, havendo-me ordenado que oralmente vos relatasse... (Percebendo o cadáver) -- Oh César!

ANTÔNIO -- Tens glorioso coração. Fica à parte e chora a flux. É contagiosa a dor, percebo-a agora, pois vendo-te nos olhos essas contas da tristeza, os meus sinto umedecidos. Teu amo, então, virá?

CRIADO -- Ainda esta noite dormiu a sete léguas, só, de Roma.

ANTÔNIO -- Então monta depressa e vai contar-lhe quanto aqui se passou. Uma lugente Roma é esta, uma Roma perigosa, uma Roma que a Otávio não faculta nenhuma segurança. Vai depressa; relata-lhe o que viste. Não! Espera. Só irás depois que o corpo eu tiver posto na praça do mercado e haja sondado com minha oração fúnebre a maneira por que o povo interpreta as conseqüências da ação desses sujeitos sanguinários. Conforme o resultado, ao moço Otávio contarás em que pé estão as coisas. Dai-me a mão.

(Saem com o corpo de César.)

Otávio, sobrinho adotivo de Júlio César, é declarado seu herdeiro, e com Antônio saem à caça dos assasinos do tio. Com a morte de Cássio, Bruto e os demais, Marco Antônio, Otávio Augusto e Lépido formam o Segundo Triunvirato: ao primeiro caberia as riquezas leste; ao segundo, a Espanha, a Gália e a administração de Roma; ao terceiro, a África.

Augusto rapidamente destituiu Lépido, e iniciou no Senado campanha contra Marco Antônio e Cleópatra. Ao contrário de seus antecessores, Otávio, antes de general, era principalmente hábil político. Conquistou a plebe e a aristocracia, cercou-se dos melhores comandantes militares - Agripa, que venceu em Actium, por exemplo -, e fez de Roma a capital soberana do mundo.

Em Actium, foram dois projetos que se chocaram. Marco Antônio e Cleópatra deslocaria o eixo da civilização para o Oriente, de volta à Grécia e ao Egito, e reinariam como os antigos monarcas teocráticos. Otávio Augusto estabeleceria o Ocidente no centro do mundo, e o Mediterrâneo como principal rota marítima e comercial. Roma subjugaria todos os demais territórios. E, embora imperador, Augustus, Otávio o faria sob a Lei: a preservação do Senado, dos Códigos, da Cidadania - e a expansão para as novas áreas conquistadas da pax romana.

Otávio triunfou.

Ciente de sua conquista, que o estabeleceu como primeiro imperador de Roma, Augusto escolheu o oitavo mês do calendário em sua homenagem. Originalmente sextillus (era o sexto mês, antes da introdução de janeiro e fevereiro), passou a se chamar Agosto.

A diferença entre o general e o político. Júlio César batizou julho em sua própria homenagem, porque foi o mês em que nasceu. Otávio, porém, nasceu em setembro. Agosto foi escolhido para celebrar sua vitória na Batalha de Actium (que, no Calendário Juliano em vigor, ocorreu em agosto, não em 2 de setembro, como no Gregoriano), a derrota e a submissão do Egito e o fim da Guerra Civil.

O Edito do Senado Romado, justificando a escolha de sextillus como agosto:

"Whereas the Emperor Augustus Caesar, in the month of Sextillis . . . thrice entered the city in triumph . . . and in the same month Egypt was brought under the authority of the Roman people, and in the same month an end was put to the civil wars; and whereas for these reasons the said month is, and has been, most fortunate to this empire, it is hereby decreed by the senate that the said month shall be called Augustus."

Agosto, em si, já explica porque Otávio, e não Júlio César, criou o Império Romano.

Olhos Gris

| Sin comentarios


Sansão e Dalila, 1949, de Cecil B. DeMille.

Original em francês:

Les violons mêlaient leur rire au chant des flûtes
Et le bal tournoyait quand je la vis passer
Avec ses cheveux blonds jouant sur les volutes
De son oreille où mon Désir comme un baiser
S'élançait et voulait lui parler sans oser.

Cependant elle allait, et la mazurque lente
La portait dans son rythme indolent comme un vers,
- Rime mélodieuse, image étincelante, -
Et son âme d'enfant rayonnait à travers
La sensuelle ampleur de ses yeux gris et verts.

Et depuis, ma Pensée - immobile - contemple
Sa splendeur évoquée, en adoration,
Et dans mon Souvenir, ainsi que dans un temple,
Mon Amour entre, plein de superstition.

Et je crois que voici venir la Passion.

Em português:

Os violinos uniam às flautas o riso
E o baile rodopiava quando a vi passar
Com o seu loiro cabelo a brincar em espiral
Das orelhas para onde o meu desejo ia
Como um beijo a dizer-lhe algo, mas sem ousar.

Contudo, ela seguia, com a marzuca lenta
A arrastá-la no seu ritmo indolente-verso
De rima melodiosa, imagem resplendente-
E essa alma infantil refulgia através
Da amplidão sensual dos olhos gris e verdes.

Meu pensamento-imóvel-desde então contempla
O esplendor evocado, em plena adoração,
E na sua Lembrança, tal como num templo,
É que entra o meu Amor, cheio de superstição.

E creio ver agora chegar a Paixão.

Initium, de Paul Verlaine, em Poemas Saturnianos.

PS 1: No Projeto Gutenberg, há volume com obras completas de Verlaine para baixar (em francês).

PS 2: É o mais belo poema, para mim, que utiliza a imagem dos olhos cinza. E, embora Verlaine comente apenas sobre o gris-esverdeado, descobri (pela melhor fonte que poderia ter) que também existe o gris-azulado.

PS 3: E dê um pulo na vizinha :)

Ridi, Pagliaccio!

| Sin comentarios

A BBC Music Magazine convocou 16 críticos para elegerem os 20 maiores tenores da História. Deu Plácido Domingo na cabeça. Com inteira justiça, na minha opinião: não apenas se trata de grande cantor, como também de extraordinário intérprete. Suas atuações são esplêndidas - ao contrário, por exemplo, de Pavarotti. Ele também é maestro, e ainda se dá ao luxo de incluir papéis wagnerianos em seu repertório.

Fiquei contente com a presença de Alfredo Kraus, de quem postei uma ária de Werther alguns posts atrás. E, claro, vale lembrar que a eleição abarca somente os tenores que foram gravados - Enrico Caruso, o primeiro a ter a voz registrada em disco.

Quantas maravilhas se perderam na poeira da História! Como é triste não existir mais ninguém que se lembre!

A lista:

1. Plácido Domingo (nascido em 1941)
2. Enrico Caruso (1873-1921)
3. Luciano Pavarotti (1935-2007)
4. Fritz Wunderlich (1930-1966)
5. Jussi Bjorling (1911-1960)
6. Lauritz Melchior (1890)
7. Beniamino Gigli (1890-1957)
8. Jon Vickers (nascido em 1926)
9. Nicolai Gedda (nascido em 1925)
10. Peter Pears (1910-1986)
11. Tito Schipa (1880-1965)
12. Carlo Bergonzi (nascido em 1924)
13. Juan Diego Flórez (nascido em 1973)
14. Peter Schreier (nascido em 1935)
15. Franco Corelli (1921-1976)
16. John McCormack (1884-1945)
17. Anthony Rolfe Johnson (nascido em 1940)
18. Alfredo Kraus (1927-1999)
19. Wolfgang Windgassen (1914-1974)
20. Serguei Lemeshev (1902-1977)

Interpretação de Plácido Domingo, em Ravenna 1998, para a ária Vesti la Giubba (primeira música a vender um milhão de cópias), da ópera I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo - ápice do Verismo, ao lado de Cavaleria Rusticana, de Pietro Mascagni:


Vesti la Giubba, da ópera I Pagliacci, de Ruggero Leoncavallo.

Libreto em italiano:

Recitar! Mentre preso dal delirio,
non so più quel che dico,
e quel che faccio!
Eppur è d'uopo, sforzati!
Bah! sei tu forse un uom?
Tu se' Pagliaccio!

Vesti la giubba,
e la faccia infarina.
La gente paga, e rider vuole qua.
E se Arlecchin t'invola Colombina,
ridi, Pagliaccio, e ognun applaudirà!
Tramuta in lazzi lo spasmo ed il pianto
in una smorfia il singhiozzo e 'l dolor, Ah!

Ridi, Pagliaccio,
sul tuo amore infranto!
Ridi del duol, che t'avvelena il cor!

Libreto em português (tradução livre, porque minha):

Representar! Enquanto no meu delírio,
Eu não sei mais o que digo,
ou o que faço!
E ainda assim é necessário... fazer um esforço!
Bah! Você não é um homem?
Você é Palhaço!

Ponha sua fantasia,
maquie o rosto.
As pessoas pagam, e elas querem rir.
E se o Arlequim roubar sua Colombina,
ria, Palhaço, então a platéia te aplaudirá!
Transforme sua angústia e suas lágrimas em gracejo,
sua dor e seus soluços em um rosto alegre - Ah!

Ria, Palhaço,
do seu amor despedaçado!
Ria da dor, que te envenena o coração!

Mundo Bizarro

| Sin comentarios

Entraram no blogue procurando (e cito textualmente):

"vidio de homem sendo castrado em praça publica".

Então... será que posto Coração Valente?

Links Úteis

| Sin comentarios

http://famouspoetsandpoems.com/

Vastíssima coleção poética, sobretudo de língua inglesa. Milhares de textos de Lorde Byron, John Milton, Sylvia Plath, Anne Sexton, E. E. Cummins, Walt Whitman, Edgar Allan Poe, Robert Louis Stevenson, W. B. Yeats, Oscar Wilde, Robert Frost, Charles Bukowski, Allen Ginsberg, Thomas Hardy, Emily Dickinson e dezenas de outros.

http://boomp3.com/

Para fazer o upload de qualquer música - não importa o tamanho -, em qualquer formato e para qualquer site (orkut, facebook, hi5, movable type, worpress, blogspot, livejournal, etc). Não precisa se cadastrar: apenas suba o arquivo, digite seu e-mail, salve a operação quando terminar e copie o código fornecido. Rapidíssimo e sem frescura.

PS: Não esqueçam de marcar a caixinha "I agree...", caso contrário dá erro.

Fogo Louco

| Sin comentarios


Gare du Nord, 1965, de Jean Rouch.

XII.
Some say that love's a little boy,
And some say it's a bird,
Some say it makes the world round,
And some say that's absurd,
And when I asked the man next-door,
Who looked as if he knew,
His wife got very cross indeed,
And said it wouldn't do.

Does it look like a pair of pyjamas,
Or the ham in a temperance hotel?
Does its odour remind one of llamas,
Or has it a comforting smell?
Is it prickly to touch as a hedge is,
Or soft as eiderdown fluff?
Is it sharp or quite smooth at the edges?
O tell me the truth about love.

Our history books refer to it
In cryptic little notes,
It's quite a common topic on
The Transatlantic boats;
I've found the subject mentioned in
Accounts of suicides,
And even seen it scribbled on
The backs of railway-guides.

Does it howl like a hungry Alsatian,
Or boom like a military band?
Could one give a first-rate imitation
On a saw or a Steinway Grand?
Is its singing at parties a riot?
Does it only like classical stuff?
Does it stop when one wants to quiet?
O tell me the truth about love.

I looked inside the summer-house;
It wasn't ever there:
I tried the Thames at Maidenhead,
And Brighton's bracing air.
I don't know what the blackbird sang,
Or what the tulip said;
But it wasn' in the chicken-run,
Or underneath the bed.

Can it pull extraordinary faces?
Is it usually sick on a swing?
Does it spend all its time at the races,
Or fiddling with pieces of string?
Has it views of its own about money?
Does it think Patriotism enough?
Are its stories vulgar but funny?
O tell me the truth about love.

When it comes, will it come without warning
Just as I'm picking my nose?
Will it knock on the door in the morning,
Or tread in the bus on my toes?
Will it come like a change in the weather?
Will its greeting be courteous or rough?
Will it alter my life altogether?
O tell me the truth about love.

Twelve Songs, de W. H. Auden.



Gymnopedie no.1, de Erik Satie.

Since you ask, most days I cannot remember.
I walk in my clothing, unmarked by that voyage.
Then the almost unnameable lust returns.

Even then I have nothing against life.
I know well the grass blades you mention,
the furniture you have placed under the sun.

But suicides have a special language.
Like carpenters they want to know which tools.
They never ask why build.

Twice I have so simply declared myself,
have possessed the enemy, eaten the enemy,
have taken on his craft, his magic.

In this way, heavy and thoughtful,
warmer than oil or water,
I have rested, drooling at the mouth-hole.

I did not think of my body at needle point.
Even the cornea and the leftover urine were gone.
Suicides have already betrayed the body.

Still-born, they don't always die,
but dazzled, they can't forget a drug so sweet
that even children would look on and smile.

To thrust all that life under your tongue!--
that, all by itself, becomes a passion.
Death's a sad Bone; bruised, you'd say,

and yet she waits for me, year after year,
to so delicately undo an old wound,
to empty my breath from its bad prison.

Balanced there, suicides sometimes meet,
raging at the fruit, a pumped-up moon,
leaving the bread they mistook for a kiss,

leaving the page of the book carelessly open,
something unsaid, the phone off the hook
and the love, whatever it was, an infection.

Wanting to Die, de Anne Sexton.

boomp3.com
II. Langsam, marschmäßig - Allegro non troppo.

Johannes Brahms (1833 - 1897) compôs Ein Deutsches Requiem, Opus 45, entre 1865 e 1868. Ao contrário das missas católicas, que possuem formas padronizadas em latim - Kyrie, Gloria, Credo, Sanctus, Benedictus e Agnus Dei, por exemplo, como na Missa no. 2 em Sol Maior de Schubert -, Brahms preferiu ele mesmo escrever o libreto, selecionando trechos da bíblia luterana de Martinho Lutero.

Ein Deutsches Requiem tem 7 movimentos, que duram cerca de 70 minutos. A mais longa música de Brahms, composta para soprano, barítono e coro misto; 2 flautas e pícolo; 2 oboés, 2 clarinetes; 2 fagotes e contrafagotes; 4 trompas; 3 trumpetes; 3 trombones; tuba; tímpano; harpa; órgão; e cordas.

Textos do original em alemão, da bíblia traduzida por Lutero:

Denn alles Fleisch ist wie Gras und alle Herrlichkeit des Menschen wie des Grases Blumen. Das Gras ist verdorret und die Blume abgefallen. (1. Petri 1,24).

So seid nun geduldig, lieben Brüder, bis auf die Zukunft des Herrn. Siehe, ein Ackermann wartet auf die köstliche Frucht der Erde und ist geduldig darüber, bis er empfahe den Morgenregen und Abendregen. (Jacobi 5,7).

Aber des Herrn Wort bleibet in Ewigkeit. (1. Petri 1,25).

Die Erlöseten des Herrn werden wieder kommen, und gen Zion kommen mit Jauchzen; ewige Freude wird über ihrem Haupte sein; Freude und Wonne werden sie ergreifen und Schmerz und Seufzen wird weg müssen. (Jesaias 35,10).

Textos em português:

Com efeito, toda a carne é como a erva, e toda a sua glória como a flor da erva - Secou-se a erva e caiu a sua flor. (1. Pedro 1,24).

Sede, pois, pacientes, irmãos, até a vinda do Senhor. Vede como o lavrador espera o precioso fruto da terra, tendo paciência até que receba o fruto temporão e o serôdio (1. Tiago 5,7).

Mas a palavra do Senhor permanece eternamente (1. Pedro 1,25).

Os remidos pelo Senhor voltarão e virão a Sião, cantando os seus louvores; e uma alegria eterna coroará a sua cabeça; possuirão gozo e alegria, e deles fugirá a dor e o gemido. (Isaías 35,10).

Dias Sem Sol

| Sin comentarios


Luz Silenciosa, 2007, de Carlos Reygadas.

Alguém moveu uma poltrona ao meu lado. Tive um sobressalto. Cada som me feria como ferro quente. Olhei. Ali sentavam-se pessoas desconhecidas, novos vizinhos que eu nunca vira. Um senhor idoso e sua mulher, gente burguesa e calma com olhos redondos e indiferentes, e bochechas que mastigavam. Mas na frente deles, meio de costas para mim, vi uma jovem, evidentemente a filha deles. Só avistei-lhe a nuca branca e estreita e por cima, como um elmo de aço, o cabelo preto, quase azul. Estava imóvel, e na sua rigidez eu a reconheci como a mesma que antes se postara no terraço como uma flor branca e sedenta ávida e aberta para a chuva. Seus dedos pequenos, finos como de alguém doente, brincavam inquietos com os talheres, mas não faziam ruído; e essa quietude em torno dela me fez bem. Também ela não comia, só uma vez sua mão pegou o copo, febril e veloz. Ah, ela também estava sentindo a febre do mundo, percebi feliz aquele gesto de sede, e uma solidariedade amável fez meu olhar pousar macio em sua nuca. Uma pessoa, uma única, senti naquele instante, não estava inteiramente apartada da natureza, também ardia no incêndio do mundo, e eu quis que ela soubesse que nisso éramos irmãos. Tive vontade de gritar para ela:

- Sinta a minha presença! Sinta a minha presença! Também estou acordado como você, também estou sofrendo! Sinta a minha presença! Sinta-me!

Eu a rodeei com o magnetismo ardente do meu desejo. Fitava as costas dela, de longe acariciei-lhe o cabelo, penetrei-a com o olhar, chamei-a com meus lábios, abracei-a, olhei e olhei, lancei sobre ela toda minha febre para que a sentisse fraternamente. Mas ela não se virou. Permaneceu hirta, uma estátua, sentada, fria e estranha. Ninguém me ajudava. Nem ela me sentia. O mundo também não estava nela. Eu ardia sozinho.

A Mulher e a Paisagem, de Stefan Zweig.

placegambettaapr05.jpg
Praça Gambetta, 5 de abril, de André Kertèsz

Chove? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que o ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia,

Onde é que chove, que eu o ouço?
Onde é que é triste, ó claro céu?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre chuva dentro em mim.
Se escuto, alguém dentro em mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Quando é que eu serei da tua cor,
Do teu plácido e azul encanto,
Ó claro dia exterior,
Ó céu mais útil que o meu pranto?

Fernando Pessoa, 4-11-1914.


Alphaville, 1965, de Jean-Luc Godard.


A DOCE VIDA, de Federico Fellini

Você é tudo, Sylvia. Você sabe que é tudo?
You are... everything... everything!
Você é a primeira mulher do primeiro dia da Criação.
Você é a mãe, a irmã, a amante, a amiga, o anjo, o diabo, a Terra, a casa.
Isso o que você é: a casa!
Sylvia...


A MULHER E A CASA, de João Cabral de Melo Neto

Tua sedução é menos
de mulher do que de casa;
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada.

Mesmo quando ela possui
tua plácida elegância,
esse teu reboco claro,
riso franco de varandas,

uma casa não é nunca
só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la.

Seduz pelo que é dentro,
ou será, quando se abra;
pelo que pode ser dentro
de suas paredes fechadas;

pelo que dentro fizeram
com seus vazios, com o nada;
pelos espaços de dentro,
não pelo que dentro guarda;

pelos espaços de dentro:
seus recintos, suas áreas,
organizando-se dentro
em corredores e salas,

os quais sugerindo ao homem
estâncias aconchegadas,
paredes bem revestidas
ou recessos bons de cavas,

exercem sobre esse homem
efeito igual ao que causas:
a vontade de corrê-la
por dentro, de visitá-la.


O NOME DA MUSA, de Jorge de Lima

Não te chamo Eva,
não te dou nome nenhum de mulher nascida,
nem de fada, nem de deusa, nem de musa, nem de sibila, nem de terras,
nem de astros, nem de flores.
Mas te chamo a que desceu do luar para causar as marés
e influir nas coisas oscilantes.
Quando vejo os enormes campos de verbena agitando as corolas,
sei que não é o vento que bole, mas tu que passas com os cabelos soltos.
Amo contemplar-te nos cardumes das medusas que vão para os mares boreais,
ou no bando das gaivotas e dos pássaros dos pólos revoando
sobre as terras geladas.
Não te chamo Eva,
não te dou nenhum nome de mulher nascida.
O teu nome deve estar nos lábios dos meninos que nasceram mudos,
nos areais movediços e silenciosos que já foram o fundo do mar,
no ar lavado que sucede as grandes borrascas,
na palavra dos anacoretas que te viram sonhando
e morreram quando despertaram,
no traço que os raios descrevem e que ninguém jamais leu.
Em todos esses movimentos há apenas sílabas do teu nome secular
que coisas primitivas escutaram e não transmitiram às gerações.
Esperemos, amigo, que searas gratuitas nasçam de novo,
e os animais da criação se reconciliem sob o mesmo arco-íris;
então ouvireis o nome da que não chamo Eva
nem lhe dou nenhum nome de mulher nascida.

10.000 a.C

| Sin comentarios

Ainda não vi 10.000 a.C. Falam horrores nos jornais, como de hábito. Mas gosto do último filme do Roland Emmerich, O Dia Depois de Amanhã.

Pelo trailer, em 10.000 a.C há seres pré-humanos que grunhem, que não tomam banho e que se vestem mal.

Nada muito diferente de 2008 d.C.

Para Diotima

| Sin comentarios


Era Uma Vez na América, 1984, de Sergio Leone.

De Hipérion para Belarmino.

Nunca conheci nenhum outro ser que fosse tão parco de necessidades, tão divinamente sóbrio. Como a onda do oceano banha as costas de ilhas afortunadas, assim o meu coração inquieto se aproximava da paz dessa jovem mulher celestial. Eu nada mais tinha para lhe dar a não ser a alma cheia de selvagens contradições, cheia de lembranças a sangrar, a não ser o meu amor sem limites com os seus mil cuidados, as suas mil esperanças agitadas; ela, porém, encontrava-se diante de mim na sua beleza imutável, sem esforço, na sua sorridente perfeição e todas as aspirações, todos os sonhos da condição mortal, ai! tudo o que nas douradas horas matinais o gênio das altas regiões prediz encontrava-se cumprido nesta alma una, silenciosa. (...)

Hipérion ou O Eremita da Grécia, de Friedrich Hölderlin.

Nacional 3, Flamengo 0

| Sin comentarios | Sin trackbacks

toro.jpgToró provoca tragédia rubro-negra em Montevidéu.

Eu pensei que havia visto o lance mais bizarro da História do futebol na partida entre Gana e Camarões, pela seminifinal da Copa da África, quando o jogador ganês empurrou o maqueiro em pleno gramado e foi expulso.


Ah, Toró!!!! Chutar o gandula fora de campo? Pela madrugada!


Flamengo já perdia por 1 a 0. Até se aguentava, embora o Nacional dominasse a peleja desde a metade do primeiro tempo, no mínimo. Antes, tivemos algumas chances em chutes de fora da área e cruzamentos perigosos.


Mas então, Toró desabou. E o Flamengo veio abaixo com ele.


O segundo tempo foi catastrófico. Só não levamos de mais porque Deus não quis. O Nacional é fraco, joga nada, mas a equipe rubro-negra esteve completamente descontrolada durante o jogo.


Vem cá: Souza foi escalado como psicólogo ou orientador motivacional para a partida?

There Will Be Blood

| Sin comentarios

sanguemao.jpg

O Wordpress coloca no mercado sua nova linha de templates baseada nos filmes que concorreram ao Oscar em 2007.

O primeiro, There Will Be Blood.

Ou O Último Americano Virgem. Há controvérsias.

Noites do Sonhador

| Sin comentarios


Noites Brancas, 1957, de Luchino Visconti.


Quatro Noites de Um Sonhador, 1971, de Robert Bresson.

- Ouça, quer saber quem sou?

- Evidentemente que sim!

- Quer sabê-lo exatamente?

- Exatamente!

- Pois bem, vou-lhe fazer a vontade: eu sou... um tipo.

- Um tipo? Mas que espécie de tipo? - exclamou a jovem, rindo com tanta vontade que dir-se-ia não rir há mais de um ano. - O senhor é muito divertido! Olhe, há aqui um banco: sentemo-nos... Ninguém passa por aqui, ninguém nos ouvirá e... portanto, comece depressa a sua história, pois, embora me tenha querido fazer acreditar no contrário, o senhor tem uma história; o que acontece é que a esconde. Antes de mais nada, o que é um tipo?

- Um tipo? Um tipo é um excêntrico, é um sujeito ridículo! - respondi, desatando a rir para fazer coro com as suas gargalhadas infantis. - É um caráter assim. Escute: sabe o que é um sonhador.

- Um sonhador? Desculpe, mas como não havia de saber? Eu própria sou uma sonhadora. Por vezes, quando estou sentada ao lado da avó, não imagina o que me passa pela cabeça... Olhe, uma pessoa começa a sonhar e já não é capaz de parar... Veja, uma ocasião fui ao ponto de imaginar que casara com um príncipe chinês... Na verdade, às vezes, faz tão bem sonhar!... Vendo melhor, não... Quem sabe! Sobretudo se não há mais nada em que pensar... - acrescentou, agora com ar muito grave.

- É isso mesmo! Se já casou, um dia, com o imperador da China, nesse caso vai portanto compreender-me maravilhosamente. Então ouça e... Mas desculpe: não sei ainda o seu nome.

- Finalmente! Só agora se lembrou disso!

- Ah, meu Deus! A verdade é que isso não me ocorreu até agora; não me pareceu indispensável...

- Chamo-me Nastenka.

- Nastenka... nada mais?

- Nada mais. Não lhe é suficiente? O senhor é difícil de contentar!

- Se me é suficiente? Pelo contrário, chega-me perfeitamente, perfeitamente, Nastenka! A menina é uma bela moça e agradeço-lhe que, para mim, consinta em ser simplesmente Nastenka!

- Na verdade? E então?

- Então, Nastenka, escute e veja como é ridícula a minha história.

Sentei-me junto dela, assumindo uma pose de uma seriedade estudada e comecei, como se estivesse a ler um livro:

- Existem, não sei se o sabe, Nastenka, existem em São Petersburgo lugares muito insólitos. Nestes sítios, dir-se-ia que não penetra o mesmo sol que brilha para os outros habitantes da cidade: o sol que ali entra parece ser outro, um novo sol, feito de encomenda para tais lugares. Nesses sítios, minha querida Nastenka, leva-se uma vida completamente diferente, que em nada se assemelha à que e desenvolve junto de nós, que pode existir num mundo desconhecido, mas não no nosso, na época séria, ultra-séria. Esta vida é uma mistura de algo puramente fantástico, de encarniçadamente idealista, simultaneamente - ai de mim, Nastenka -, de grosseiramente prosaico e comum, para já não dizer insolitamente vulgar.

- Ufa! Meu Deus, que preâmbulo! Que terei ainda de ouvir?

- Vai saber, Nastenka (parece-me que nunca me cansarei de lhe chamar Nastenka), vai saber que nesses lugares vivem seres esquisitos: os tais sonhadores. Sabe? O sonhador, para definir pormenorizadamente, não é um homem, é uma espécie de criatura de gênero neutro. Aloja-se, na maior parte do tempo, num inacessível refúgio, como se pretendesse até ocultar-se da luz do dia, e, uma vez encolhido na sua toca, metido na sua casota como o caracol, ou pelo menos parece-me muito, neste aspecto, com esse curioso bichinho que é simultaneamente um animal e uma casa e que se chama tartaruga. Na sua opinião, por que razão gostará ele tanto das suas quatro paredes, monotonamente pintadas de verde, sujas, tristes e enegrecidas pelo fumo do tabaco? Por que razão esse ridículo sujeito, quando algum dos seus raros conhecimentos o vem visitar (e ele procede de tal modo que, a pouco e pouco, os seus amigos acabam todos por desaparecer), por que razão esse homem acolhe o visitante com tal embaraço, com um rosto de tal modo perturbado e tão confuso como se acabasse de cometer um crime, ali, entre as suas quatro paredes, como se fosse apanhado a fabricar notas falsas ou a escrever versinhos para enviar a qualquer revista com uma carta anônima, dizendo que o verdadeiro poeta morreu e que um seu amigo considera como dever sagrado publicar a sua obra? Por que razão, diga-me, Nastenka, a conversa se estabelece com tanta dificuldade entre estes dois interlocutores? Por que motivo não se soltam gargalhadas e não se troca qualquer palavra espirituosa com este amigo surgido de improviso, o qual em qualquer outra circunstância tanto gosta das gargalhadas e das palavras espirituosas, dos discursos sobre o belo sexo e sobre outros assuntos agradáveis? Por que razão, em suma, este amigo, por certo um conhecimento de fresca data, logo à primeira vista - porque, em casos destes, não haverá uma segunda vista - por que razão o próprio visitante se sente tão perturbado e frio; com o seu espírito (isto se alguma vez o teve) embotado, ao ver o rosto transtornado do seu anfitrião, o qual, por seu turno, está agora completamente distraído do seu derradeiro grão de sensatez, após ter feito esforços gigantescos, mas vãos, para remover as dificuldades da conversa e para a tornar agradável, mostrando a sua experiência da sociedade, falando também sobre o belo sexo e, pelo menos através desta concessão, tentar ajudar aquele pobre diabo caído por engano em sua casa? Por que razão, ainda, o visitante agarra de repente no chapéu e se retira rapidamente, lembrando-s de súbito de um assunto absolutamente inadiável, que nunca existiu, e liberta de qualquer maneira a mão do caloroso aperto do anfitrião, empenhado agora em manifestar o seu pesar e a ganhar o tempo perdido? Por que razão, ao afastar-se da porta, o amigo solta uma grande gargalhada e promete a si mesmo nunca mais voltar a casa daquele excêntrico - se bem que, no fundo, este excêntrico seja um excelente rapaz e, ao mesmo tempo, não se pode impedir de conceder á sua imaginação um pequeno devaneio: comparar, ainda que longinquamente, a fisionomia do seu interlocutor de há momentos durante toda a visita com o aspecto daquele infeliz gatinho perseguido, aterrorizado, torturado de todas as maneiras pelas crianças que o aprisionaram traiçoeiramente e que, o mais assustado possível, lhes conseguiu finalmente fugir para debaixo da mesa, onde, mergulhado na obscuridade, á sua vontade, se espreguiçou e lavou, alisando o pelo com as patinhas, após as ter passado pelo seu focinhito desconfiado e que, depois, cumprida esta tarefa, olhou longa e hostilmente a natureza, a vida e até os restos da refeição dos donos que a cozinheira benévola lhe reservou?

- Escute, interrompeu Nastenka, que me escutava surpreendida desde o começo, com os olhos e com a boca muito aberta -, escute: não sei, de modo algum, a que título vem com tudo isso, nem por que motivo me faz perguntas tão estranhas. Do que eu tenho certeza é de que todas essas aventuras lhe sucederam a si, de fio a pavio.

- Se dúvida - respondi com um rosto grave.

- Então, se não tem dúvidas, continue, pois estou ansiosa para saber como isso irá acabar.

- A Nastenka quer saber o que faz no seu reduto o nosso herói ou, melhor dizendo, o que eu faço, pois o herói de toda a história sou eu, a minha própria e modesta pessoa. Quer saber por que razão é que fiquei de tal modo perturbado e desvairado durante todo o dia, após a inesperada visita do meu amigo? Quer saber por que fiquei confundido e enrubescido quando abriram a porta do meu quarto e sucumbi tão miseravelmente ao peso da minha própria hospitalidade?

- Na verdade, quero - respondeu Nastenka -, pois aí é que reside todo o problema. Ouça: o senhor sabe contar as coisas muito bem, mas não haveria maneira de as contar um pouco pior? Assim, quando fala, dir-se-ia que está a ler num livro.

- Nastenka! - respondi, com uma voz grave e severa fazendo esforços para não me rir -, minha querida Nastenka, bem sei que conto bem, desculpe-me, não sei contar as coisas de outra maneira. Neste momento assemelho-me ao espírito do rei Salomão, que permaneceu durante mil anos encerrado numa ânfora, selada com sete selos, e que, finalmente, foi libertado desses sete selos. Neste momento, minha querida Nastenka, porque há já muito tempo que procurava uma certa pessoa, e isto significa que a procurava a si e que estava escrito que nos veríamos agora - neste momento, abriram-se no meu cérebro milhares de válvulas e tenho de deixar as palavras afluírem em torrente, pois, caso contrário, sufocaria. Por isso, peço-lhe que não me interrompa, Nastenka, e que me escute com submissão e docilidade. De outro modo, calar-me-ei.

- Não, não e não! Não quero! Fale! A partir de agora não pronunciarei nem mais uma palavra.

- Eu continuo. Nastenka, minha amiga, há uma hora do dia de que gosto extraordinariamente. É aquela em que cessam quase todas as ocupações, funções e obrigações e em que toda a gente se apressa a voltar a casa para jantar ou descansar e durante esse mesmo tempo imagina ir encontrar ainda outros motivos de alegria na noite e em todo o tempo de liberdade que resta. A essa hora, também o nosso herói - pois permitir-me-á, Nastenka, que faça a minha narrativa na terceira pessoa, pois se o fizesse na primeira pessoa envergonhar-me-ia terrivelmente -, assim, portanto, a essa hora também o nosso herói, que tampouco está desocupado, segue os outros. Uma bizarra sensação de contentamento, porém, resplandece no seu rosto pálido e levemente enrugado. Ele não permanece indiferente ao pôr-do-sol que, lentamente, estende o manto sobre o céu frio de São Petersburgo. Se dissesse que ele o contempla, mentiria; não o contempla, olha-o, sim, mas sem disso se aperceber, tal como o homem fatigado ou ocupado, nesse mesmo momento, na observação de outro motivo mais interessante, de maneira que só por instantes, quase involuntariamente, ele pode conceder atenção àquilo que o rodeia. Sente-se satisfeito porque interrompeu, até ao dia seguinte, assuntos aborrecidos e contente como um colegial a quem libertassem dos deveres escolares mandando-o para o recreio, para os seus jogos e travessuras favorito.

Olhe-o disfarçadamente, Nastenka, verá logo que esse sentimento de alegria já se refletiu felizmente nos seus débeis nervos, atuando sobre a sua imaginação doentiamente excitada. Veja, pensa em qualquer coisa... No que será? No seu jantar? Em como irá passar o serão de hoje? O que olhará daquela maneira? Será aquele cavalheiro de ar grave, que acaba de cumprimentar de maneira tão pitoresca uma senhora que passou por ele, há poucos momentos, na sua elegante carruagem, na sua flamante cabeça? Não, Nastenka, o que lhe poderia agora interessar tais ninharias? Agora é rico, rico na sua vida interior; enriqueceu de um momento para o outro e não foi em vão que brilhou tão radiosamente diante dele o derradeiro raio do sol moribundo, fazendo florescer no seu coração rejuvenescido um enxame de sensações. Agora, mal repara no caminho que segue, embora os mínimos pormenores desse mesmo caminho lhe mobilizassem habitualmente a atenção. Agora, a "densa Fantasia" (já leu Jukovski, minha querida Nastenka?) Teceu com a mão caprichosa a sua trama de ouro e traçou diante dos seus olhos os arabescos de uma vida maravilhosa, estranha e - quem sabe? - talvez, com a sua mão caprichosa, o tenha transportado ao sétimo céu de cristal, através deste excelente passeio d granito por onde s encaminha para sua casa. Tente detê-lo, agora, pergunte-lhe bruscamente onde está neste momento, os ardis por que passou; estou certo de que não se recordará de nada, nem donde esteve, nem onde está nesse momento, e, enrubescendo de despeito, inventará qualquer mentira para salvar as conveniências.

Eis a razão porque estremeceu de tal modo quase gritando e olhando assustado em torno de si só porque uma anciã muito respeitável o interpelou delicadamente no meio do passeio, perguntando-lhe o caminho para sua casa, pois perdera-se. Com os sobrolhos franzidos pelo mau humor, continuou a caminhar, mal notando que mais de um transeunte sorriu ao observá-lo e se voltou para o seguir com o olhar e que uma rapariguinha, após lhe ter receosamente cedido passagem, explodiu em sonoras gargalhadas fitando com os olhos arregalados o seu largo sorriso contemplativo e os gestos dos seus braços. Foi ainda, porém, a Fantasia que arrebatou no seu vôo jovial a anciã, os transeuntes curiosos, a rapariguinha zombeteira e os homens que jantam ali, nas suas barcas que obstruem a Fontanka (suponhamos que o nosso herói passava justamente por aí nesse momento); a todos envolveu maliciosamente no seu véu, tal como se fossem moscas apanhadas numa teia de aranha e, com esta nova aquisição, o excêntrico entrou finalmente no seu quarto, na sua toca dileta, sentou-se à mesa, jantou lentamente e apenas voltou à realidade quando Matriona, a criada, meditativa e eternamente enferma, após ter levantado a mesa, lhe veio trazer o seu cachimbo; voltou à realidade e, com surpresa, verificou que acabara completamente de jantar sem ter a mínima noção do que comera e como comera.

O quarto está imerso na obscuridade; a sua alma está vazia e triste; todo um reino de quimeras se desmoronou em seu redor, se desmoronou sem deixar rasto, sem ruído nem tumulto, passando como um sonho, e ele nem sequer se recordou de ter acalentado essas quimeras. Porém, uma espécie de obscura sensação, que magoou levemente o seu peito, uma espécie de novo desejo seduz, estimula e irrita a sua imaginação e suscita furtivamente um exército de novos fantasmas. No exígua quarto reina o silêncio; a solidão e a ociosidade acariciam-lhe a imaginação e ele lentamente vai-se inflamando e, lentamente, atinge o estado de ebulição, como a água na cafeteira da velha Matriona, que, imperturbável, ao lado, na cozinha, se ocupa de preparar o café caseiro. Ei-la que se evola em girândolas e o livro em que distraidamente pegara cai das mãos do meu sonhador, que nem sequer leu até a terceira página. Excitada, a sua imaginação de novo ganha asas, e, bruscamente, mais uma vez, uma nova vida o vem fascinar. Novo sonho: nova felicidade. Volta a beber o veneno delicioso e requintado do sonho! Que importa a vida real? Nós vivemos uma vida tão ociosa, tão parada, tão desprezível, estamos tão descontentes da nossa sorte, tão enfastiados da nossa existência! E, na verdade, verifique como, à primeira vista, tudo se apresenta, na nossa vida, tão amargo como hostil... "Pobres criaturas!", pensa o meu sonhador. Nada de surpreendente existe no seu pensamento! Repare nesses mágicos fantasmas que diante dele se formam: fascinantes, caprichosos, amplamente e sem limites, num fantástico quadro animado onde se encontra no primeiro plano, naturalmente como figura principal, a preciosa pessoa do nosso herói. Veja: que aventuras variadas, que infinito turbilhão de sonhos exaltados! Perguntará talvez: como que sonha ele? Para quê fazer semelhante pergunta? Como é evidente, sonha com tudo... Vê-se no papel de um poeta, a príncipe ignorado e depois consagrado; na sua amizade com Hoffmann, na matança da noite de São Bartolomeu, em Diane Vernon, num papel heróico quando da tomada da Cazã por Ivan, O Terrível, Clara Movbray, Offie Deans, em Huss comparecendo perante os prelados reunidos em concílio, na revolta dos mortos em Roberto, O Diabo (lembra-se da música? Transporta-nos ao cemitério!), em Minna e em Brenda, na batalha do Beresina, na leitura de um poema no palácio da condessa V...a D...a, em Danton, em Cleópatra e suoi amanti, na casinha de Kolomna, num pequeno refúgio onde, a seu lado, um ente amado o escutasse, numa noite de Inverno, com a sua boquinha e com os seus grandes olhos verdes abertos - como a Nastenka me escuta agora!...

Não, Nastenka, que lhe interessa a ele, a esse ser mergulhado na volúpia da ociosidade, essa vida a qual nós aspiramos? Na sua opinião, trata-se de uma pobre vida miserável, sem adivinhar que, também para ele, talvez venha a chegar a hora amarga em que por um só dia dessa vida miserável dará toda a sua bagagem de devaneios fantásticos e ainda não por alegria ou felicidade, e em que não quererá mesmo escolher, nesse momento de dor, de arrependimento e de infinito desgosto. Mas, enquanto não chega essa temível hora, não deseja nada, está acima dos desejos, pois nada lhe falta, está saciado, é o demiurgo da sua própria vida, construindo-a à medida da sua fantasia de momento. E, com efeito, este mundo fantástico do faz-de-conta cria-se com tanta facilidade, tão naturalmente! Como se, na verdade, tudo isso não fosse ilusão! Em certas alturas, somos verdadeiramente levados a acreditar que toda esta vida não é uma exaltação dos sentidos, de uma miragem, de um equívoco da imaginação, mas sim de algo de real, de autêntico, de existente! Por que motivo então, diga-me, Nastenka, por que motivo nessas alturas a respiração se lhe prende? Por que sortilégio, mercê de que desconhecida vontade, as pulsações se lhe aceleram e as lágrimas jorram dos olhos do sonhador, inundando-lhe as faces pálidas e ardentes e invadindo todo o seu ser de uma felicidade irresistível? Por que razão passam vertiginosamente as noites de insônia envoltas numa alegria e numa felicidade inesgotáveis, e quando a aurora trespassa as janelas com sua luz rósea e o sol da madrugada incendeia o seu triste quarto com a sua fantástica e difusa luminosidade, como sucede sempre em São Petersburgo, por que razão o nosso sonhador, fatigado, esgotado, se deixa tombar sobre o leito e adormece, com uma respiração doentiamente sacudida pelo entusiasmo e com um sofrimento tão languidamente delicioso no coração?

Sim, Nastenka, enganamo-nos, embora contra a nossa vontade, ao acreditarmos que a paixão verdadeira, autêntica, atormenta a alma, ao acreditarmos que existe algo de vivo, de tangível, nos sonhos imateriais. Mas que ilusão; veja, por exemplo: o amor avassalou meu peito com toda a sua inesgotável alegria, com todos os seus extenuantes tormentos... Deitei-lhe apenas um olhar rápido e convença-se daquilo que lhe digo. Bastará olha-lo para acreditar, minha querida Nastenka, que ele nunca conheceu realmente aquele que tanto amou no seu exaltado sonho? Será possível que apenas o tenha visto entre fantasmas fascinantes e que esta paixão não tenha sido para ele mais do que um sonho? Será possível que nunca haja estreitado as mãos dela ao longo de tantos anos da sua vida, sós, entregues a si mesmos, ignorando todo o universo e sua vida, à vida do outro? Será possível que não tenha sido ela quem, ao crepúsculo, no momento da separação, se tenha reclinado, soluçante e desesperada, sobre o seu peito, sem escutar a tempestade desencadeada debaixo de um céu lúgubre, sem ouvir o vento que arrancava e arrastava com fúria as lágrimas que brotavam dos seus cílios negros? Será possível que tudo isto não tenha passado de um sonho, este jardim melancólico, abandonado e selvagem, com as suas áleas povoadas de musgo, solitário e hostil, por onde tantas vezes passearam ambos, esperando, desesperando, amando, amando-se mutuamente durante tanto tempo, tão longa e ternamente? E essa velha mansão ancestral, onde ela viveu solitária e triste durante tantos anos, com o seu velho e sombrio marido, perpetuamente silencioso e bilioso, um marido que os assustava, pois eram ambos tímidos como crianças, melancólicos e receosos, ocultando-se mutuamente o seu amor? Como se atormentavam, como tinham medo, como era puro e inocente o seu amor e como (isto é evidente, Nastenka) as pessoas eram más! E, Deus meu, não foi ela quem ele encontrou depois, longe da pátria, sob um céu estrangeiro, meridional e ardente, na maravilhosa cidade eterna, no esplendor de um baile, ao som da música, num palazzo (forçosamente, num palazzo) mergulhado num mar de fogo, nessa varanda engrinaldada de mirtos e de rosas onde, tendo-o reconhecido, arrancara apressadamente a sua máscara e sussurrando-lhe: "Sou livre!", trêmula e soluçante se lhe lançara nos braços; então, num grito de entusiasmo, apertados um contra o outro, esqueceram num abrir e fechar de olhos o desgosto e a separação e todos os tormentos, a espera cruel, o velho, o sombrio jardim da pátria distante e o banco sobre o qual, com um derradeiro e apaixonado beijo, ela fugira ao seu amplexo, aturdida por um sofrimento sem esperança... Oh, tem de o confessar, minha querida Nastenka, foi caso para desejar fugir, para ter ficado perturbado e coroado como um colegial que acabasse de esconder no bolso a maçã roubada no jardim vizinho, quando um rapaz seu amigo, sadio e alto, alegre e jovial, bem falante, abre sem se ter anunciado a porta do quarto e grita como se nada tivesse passado: "Sou eu, meu caro, acabo de chegar de Pavlovski.' Santo Deus, o velho como morreu, eis enfim a felicidade, e nesta altura é que o tal tipo lhe apeteceu chegar de Pavlovski!".

Tendo terminado as minhas patéticas exclamações, calei-me (pateticamente). Lembro-me bem, tinha uma terrível vontade de rebentar em gargalhadas, pois sentia crescer dentro de mim um diabinho inimigo, que minha garganta começava a estar presa, que o queixo me tremia e que cada vez mais os olhos se me marejavam d lágrimas... Esperava que Nastenka, que me escutava atentamente, com os seus grandes e inteligentes olhos verdes muito abertos, ia explodir em gargalhadas infantis, irresistivelmente jovial, e já me começava a arrepender de ter ido demasiado longe, de ter contado em vão aquilo que desde há tanto tempo me enchia o coração, aquilo de que podia falar como se estivesse a ler um livro, pois desde longa data a minha sentença sobre mim mesmo estava decidida (E eu não me impedira de a ler, ainda que, confesso-o, não esperava ser compreendido)... Porém, com grande surpresa minha, ela guardou silêncio, deixou decorrer um momento, comprimiu levemente a minha mão e com uma tímida simpatia perguntou:

- É verdade que passou desse modo toda a sua vida?

- Toda a minha vida, Nastenka - respondi -, toda a minha vida, e segundo me parece, acabá-la-ei da mesma forma!

- Não, é impossível - replicou com tranqüilidade -, não será assim. Será dessa maneira, isso sim, que irá decorrer a minha junto da avó. Escute: sabe que não se deve viver assim?

- Eu sei, Nastenka, eu sei! - exclamei, sem poder conter a minha emoção - E agora sei melhor do que nunca que perdi gratuitamente os melhores anos da minha vida! Agora sei-o, e, cruelmente, tenho disso uma consciência mais aguda desde que Deus a enviou junto de mim, a si, meu bom anjo, para mo dizer e provar. Agora, que estou sentado junto de si e que falo consigo, tenho medo de pensar no futuro, pois no futuro será ainda a solidão, ainda esta vida inútil e reservada... E no que poderei depois sonhar quando, acordado ao seu lado, fui feliz? Seja bendita, minha querida, por não me ter repelido imediatamente, por me ter permitido dizer hoje que, pelo menos, pude viver duas noites em toda a minha vida!

- Oh, não, não! - gritou Nastenka, e pequenas lágrimas refulgiram nos seus olhos - Não, isso nunca acontecerá! Não nos separemos assim! Que são duas noites?

- Nastenka, Nastenka! Sabe que conseguiu reconciliar-me por muito tempo comigo mesmo? Sabe que não terei, a partir de agora, uma opinião de mim próprio tão má como tive em certos momentos? Sabe que doravante não lamentarei mais, talvez, ter cometido um crime e um pecado na minha existência (porque uma vida como a minha é um crime e um pecado)? E não julgue que estou a exagerar; por amor de Deus, não pense uma coisa dessas, Nastenka, porque vivi alturas de um tal desespero, de um tal tédio..., porque me pareceu já que tinha perdido todo o tato, toda a noção do presente, do real; porque, em suma, cheguei a amaldiçoar-me a mim próprio; porque após as minhas noites fantásticas passei por pavorosos momentos de abatimento! No entanto, ouvimos à nossa volta a multidão bramir e rodopiar no turbilhão da vida, ouvimos e vemos viver os homens, viver bem acordados, vemos que a vida não se lhes evaporará como um sonho, uma visão, que a vida deles é perpetuamente renovada, eternamente jovem, sem que uma hora se assemelhe á seguinte, enquanto a tímida fantasia é sombria e monótona até a banalidade, escreva da sombra, da idéia escrava da primeira nuvem que de súbito obscurecerá o sol e oprimirá de angústia o verdadeiro coração sampetersburguês, tão cioso do seu sol... Ora, na angústia não pode existir fantasia!

Sentimos, que por fim, essa inesgotável fantasia se fatiga, se esgota numa perpétua tensão, porque amadurecemos e superamos nossos ideais antigos, os quais se desfazem em pó e se desmoronam, e, se não existe outra vida, é preciso construí-la mesmo com essas ruínas. E, no entanto, é algo de diferente aquilo que a alma solicita e quer! É, pois, em vão que o sonhador procura entre as cinzas dos seus velhos devaneios pelo menos qualquer cintilação para lhe soprar em cima e aquecer com um fogo novo o seu coração arrefecido e nele ressuscitar tudo o que outrora era tão agradável, tudo o que lhe sensibilizava a alma, tudo o que lhe fazia palpitar o sangue, tudo o que lhe inundava de lágrimas os olhos e iludia de maneira tão magnífica! Sabe, Nastenka, ao que eu cheguei? Sabe que me vejo obrigado a celebrar o aniversário dos meus sentimentos, o aniversário daquilo que dantes me era tão caro e que, na realidade, nunca existiu - porque esses aniversários se celebram sempre em memória dos mesmos tolos devaneios - e, em última análise, esses próprios tolos devaneios não existem, porque não há possibilidade de os extrair da vida: até os sonhos nascem da vida, não é verdade?

Sabe que gosto agora de lembrar e de visitar, em certas datas, locais onde um dia fui feliz à minha maneira; gosto de edificar meu presente de harmonia com o irreversível do passado, e, muitas vezes, vagueio como uma sombra, sem objetivo, sombrio e triste, por sítios afastados e pelas ruas de São Petersburgo?

Que recordações! Lembro-me, por exemplo, de que neste local, há exatamente um ano, precisamente a esta hora, neste mesmo passeio, vagueei tão solitário e tão sombrio como hoje! E repare que nessa altura também os pensamentos eram tristes; ainda que não fosse mais feliz e tranqüila, não existindo nela esta idéia negra que agora de mim se apegou; nada desses problemas de consciência, sombrios e severos remorsos, que nem de dia nem de noite me deixam descansado. E uma pessoa interroga-se: mas então onde estão os teus sonhos? E sacode a cabeça, dizendo: como os anos passam depressa... E novamente nos interrogamos: mas o que fizeste tu dos teus anos? Onde foste enterrar o tempo mais precioso? Viveste verdadeiramente? Sim ou não? Repara, dizemos para nós mesmos, repara como o mundo arrefeceu. Passarão ainda mais anos e, após eles, virá a triste solidão, virá com a sua bengala e vacilante velhice e, pós ele, o tédio e o desespero. O teu mundo fantástico empalidecerá; os teus sonhos morrerão, fenecerão, cairão como as folhas mortas caem das árvores. Oh. Nastenka, como será triste ficar só, completamente só, e não ter absolutamente nada a lamentar, nada de nada..., pois tudo o que se perdeu, tudo isso junto, não significa nada, é um zero estúpido e perfeito, tudo não terá passado de um sonho!

- Vamos, não me comova mais! - pediu Nastenka, enxugando uma pequena lágrima que lhe rolara dos olhos. - Agora isso acabou! Agora somos dois. Agora, suceda o que suceder, nunca nos separaremos! Escute. Eu sou uma rapariga simples, estudei pouco, se bem que a minha avó me tenha contratado um professor, apesar disso, eu compreendo-o, pois tudo o que acaba de me contar eu própria já o vivi quando a avó me pregou à sua saia. Certamente que não teria sido capaz de o narrar tão bem como o senhor, pois, como já lhe disse, os meus estudos não foram grandes - acrescentou timidamente, pois experimentava sempre um certo respeito em relação ao meu tom patético e ao meu estilo grandiloqüente. - Agora conheço-o perfeitamente, conheço-o dos pés à cabeça. E quer saber? Vou-lhe contar a minha história e vou-a contar a mim própria, sem nada ocultar, e, depois disso, em compensação, o senhor dar-me-á um conselho, pois é um homem inteligente. Promete dar-me esse conselho?

- Ah, Nastenka - respondi eu -, nunca fui conselheiro de quem quer que fosse, e muito menos um conselheiro inteligente, mas vejo agora que se continuarmos a conviver dessa maneira, isso será já em si inteligente e, portanto, cada um de nós proporcionará ao outro uma grande quantidade de conselhos inteligentes! Então, minha gentil Nastenka, qual é o conselho que irá me pedir? Diga-mo francamente. Agora estou tão alegre, tão feliz, audacioso e inteligente, que as palavras me ocorrerão sem esforço.

- Não, não! - interrompeu Nastenka, rido-se. - Do que preciso não é somente um conselho inteligente, mas sim de um conselho vindo do fundo do coração, de um conselho fraterno, como se me tivesse amado durante toda a sua vida.

- De acordo, Nastenka, de acordo! - exclamei num arrebatamento. - E se a amasse desde há vinte anos não a poderei amar mais nem melhor.

- Dê-me a sua mão!

- Ei-la! - respondi, estendendo-lha.

- Vou começar então a minha história.

Se tivesse que me descrever, usaria a passagem acima de Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski.

Pois é, a grande patrocinadora e parceira do cinema nacional agora também colocou o nome na Maratona Odeon. Fazer o que? Eu preferia "Maratona Odeon Sinaf - Pague para Entrar, Reze para Sair", mas não é possível.

A programação de março:

23h20
2 Dias em Paris, de Julie Delpy.

Com Julie Delpy, Adam Goldberg, Daniel Bruhl, Marie Pillet
(2 Days in Paris, 96 minutos, França, Alemanha, 2007)

Dois dias na vida de um casal que vive em Nova York. Marion é uma fotógrafa francesa. Seu namorado, Jack, é um americano decorador de interiores. Na tentativa de reascender o relacionamento entre eles, os dois decidem viajar para a Europa. A primeira parada é Veneza, mas nada funciona como esperado pois ambos acabam tendo problemas com gastrite. Marion sugere a França - mais precisamente Paris, já que é sua casa. Mas surgem novos problemas: Jack terá de lidar com a autoritária família de Marion e a recusa deles em se comunicar na língua inglesa; Marion flerta com o ex-namorado, causando ciúmes em Jack; e este deixa Marion fora do sério porque quer fotografar todas as mais famosas lápides em Paris, além de reclamar que as camisinhas francesas são muito pequenas para ele.

2h
Irina Palm, de Sam Garkarski.

Com Marianne Faithfull, Miki Manojlovic, Kevin Bishop, Siobhan Hewlett, Dorka Gryllus, Jenny Agutter, Corey Burke, Meg Wynn Owen e Susan Hitch (Irina Palm, Belgium/ Luxembourg/ UK/ Germany/ France, 2007, 103 minutos)

Maggie (Marianne Faithfull) é uma viúva em torno dos 50 anos, que precisa conseguir dinheiro para pagar o caro tratamento médico de seu neto. Desesperada, ele vagueia pelas ruas do Soho londrino até encontrar um aviso na porta do clube privê Sexy World, que diz que procura uma "recepcionista". Decidida, Maggie se apresenta para a vaga e consegue o emprego. Com a ajuda da colega Luisa (Dorka Gryllus) ela logo aprende as manhas da profissão, tornando-se a sedutora Irina Palm. Rapidamente ela se torna a estrela mais lucrativa e procurada do clube, mas sua vida dupla gera desconfiança de seu filho e as fofocas dos vizinhos.

4h30
Partículas Elementares (Elemetarteilchen, Alemanha, 2006) de Oskar Roehler.

Com: Moritz Bleibtreu, Christian Ulmen, Martina Gedeck, Franka Potente, Nina Hoss, Uwe Ochsenknecht, Corinna Harfouch, Ulrike Kriener, Jasmin Tabatabai, Michael Gwisdek, Herbert Knaup, Tom Schilling

Dois irmãos com mais de 30 anos possuem personalidades opostas, sendo um deles tímido e introspectivo, enquanto o outro é adepto de fantasias sexuais realizadas com prostitutas. Quando ambos conhecem duas mulheres pelas quais se apaixonam, algo muito sério acontece, fazendo com que os dois homens decidam entre lutar pelas suas conquistas ou voltar a viver como antes.

A grande curiosidade está logo no primeiro: Julie Delpy diretora. Ela atua, canta, escreve e é uma belezura - será que atrás das câmeras manda bem? Há Marianne Faithfull no filme de Sam Garkarski... e a Maratona termina com Oskar Roehler.

Bem... Oskar Roehler cometeu Agnes e Seus Irmãos, há dois ou três anos, no Festival do Rio. Caso assistam ao novo, é por conta e risco, porque avisei o contrário.

E vale o mantra: o cinema alemão está morto e enterrado! (salvo os senhores habituais: Herzog, Kluge, Syberberg - Wenders não...).


O Ano Passado em Marienbad, 1961.Entre os melhores já feitos.

Ainda mais instrutivo é o confronto de Robbe-Grillet e Resnais em O Ano Passado em Marienbad. O que parece extraordinário nessa colaboração é que dois diretores (já que Robbe-Grillet não foi um simples roteirista) tenham produzido uma obra tão consistente, embora a concebendo de maneira tão diferente, quase oposta. Talvez revelem com isso a verdade de toda verdadeira colaboração, quando a obra não é apenas vista, mas fabricada segundo processos de criação completamente diferentes, que se unem num êxito renovável, mas sempre único. Esse confronto de Resnais e Robbe-Grillet é complexo, turvado pelos seus protestos da maior amizade, e pode ser avaliado em três níveis diversos. Em primeiro lugar, há um nível de cinema "moderno", marcado pela crise da imagem-ação. O Ano Passado... foi, aliás, um momento importante dessa crise: a falência dos esquemas sensórios-motores, a andança das personagens, a ascenção dos clichês e dos cartões-postais nunca deixaram de inspirar a obra de Robbe-Grillet. E, nele, as correias que atam a mulher cativa não têm apenas valor erótico e sádico, são a maneira mais simples de deter o movimento. Mas também em Resnais as andanças, as imobilizações, as petrificações, as repetições documentam, constantemente, uma dissolução geral da imagem-ação. O segundo nível seria o do real e do imaginário: já se notou que, para Resnais, há sempre algo real que subsiste, e especialmente coordenadas espaço-temporais que mantêm sua realidade, ainda que a preço de entrar em conflito com o imaginário. É assim que Resnais sustenta que algo efetivamente aconteceu no "ano passado..." e, em seus filmes posteriores, estabelece uma topografia e uma cronologia ainda mais rigorosa porque tudo o que neles se passa é imaginário ou mental. Enquanto, em Robbe-Grillet, tudo se passa "na cabeça" das personagens, ou melhor, do próprio espectador. No entanto, essa diferença indicada por Robbe-Grillet convence muito pouco. Nada se passa na cabeça do espectador que não provenha do caráter da imagem. Vimos que, na imagem, a distinção sempre se faz entre o real e o imaginário, o objetivo e o subjetivo, o atual e o virtual, mas que esta distinção se torna reversível, e, neste sentido, indiscernível. Distintos porém indiscerníveis, tais são o imaginário e o real em ambos os atores. De modo que a diferença entre os dois só pode aparecer de outra maneira. Ela se apresentaria antes como define Mireille Latil: os grandes contínuos de real e de imaginário em Resnais, em contraposição aos blocos descontínuos ou aos "choques" de Robbe-Grillet. Mas este novo critério não parece capaz de se desenvolver em nível do par imaginário-real - ele necessariamenre requer um terceiro nível, que é o tempo.

Robbe-Grillet segere que sua diferença com Resnais deve ser finalmente procurada no plano do tempo. A dissolução da imagem-ação, a indiscernibilidade que se segue, se fariam ora em proveito de uma "arquitetura do tempo" (seria o caso de Resnais), ora de um "presente perpétuo" separado de sua temporalidade, quer dizer, de uma estrutura privada de tempo (caso do próprio Robbe-Grillet). No entanto, ainda aí, hesitamos em acreditar que um perpétuo presente implique menos imagem-tempo que um eterno passado. O presente puro não pertence menos ao tempo do que o passado puro. A diferença está, pois, na natureza da imagem-tempo, plástica num caso, arquitetural no outro. É que Resnais concebe O Ano Passado, como seus outros filmes, sob a forma de lençóis ou regiões de passado, enquanto Robbe-Grillet vê o tempo sob a forma de pontas de presente. Se O Ano Passado pudesse se dividir, diríamos que o homem X está mais perto de Resnais, e a mulher A de Robbe-Grillet. O homem, com efeito, tenta envolver a mulher com lençóis contínuos dos quais o presente é apenas o mais estreito, como o avançar de uma onda, enquanto a mulher, ora desconfiada, ora obstinada, ora quase convencida, salta de um bloco a outro, não pára de transpor um abismo entre as duas pontas, entre dois presentes simultâneos. De qualquer modo, os dois autores não estão mais no domínio do real e do imaginário, mas no tempo, como veremos, no domínio ainda mais tenebroso do verdadeiro e do falso. Claro, o real e o imaginário continuam seu circuito, porém apenas como a base de uma figura mais alta. Não é mais, ou não é mais apenas o tornar-se indiscernível de imagem distintas, são alternativas indecidíveis entre circuitos de passado, diferenças inextricáveis entre pontas de presente. Com Resnais e Robbe-Grillet um acordo se produziu, ainda mais forte porque fundado em duas concepções opostas do tempo, que percutiam uma na outra. A coexistência de lençóis de passado virtual, a simultaneidade de pontas de presente desatualizado - são estes dois signos diretos do Tempo em pessoa.

Cinema 2: A Imagem-Tempo, de Gilles Deleuze. Páginas 127 - 129.

Béla Tarr na ECO

| Sin comentarios

ohomemdelondres.jpg
O Homem de Londres não está na mostra...

De 3 a 7 de março (de segunda a sexta-feira) , das 18h30 às 22h:

dia 3
Almanac of Fall (Hungria, 1984, 120 min). O filme relata a tentativa desesperada de relacionamento entre os ocupantes de um grande apartamento. Eles lutam contra problemas financeiros, revelam medos e solidão e imploram por amor, ao mesmo tempo em que se apóiam uns aos outros e se odeiam por isso.

dia 4
Damnation (Hungria, 1988, 116 min). Karrer leva a vida em desespero. Não haveria esperança em sua existência solitária e vazia, não fosse pelo Titanik Bar e sua bela cantora. Ela, porém, é casada. E Karrer fará de tudo para manter longe o marido da amada.

Após a exibição, debate com a participação de:

- Consuelo Lins - Documentarista e Professora da Escola de Comunicação da UFRJ. Escreve regularmente artigos sobre a criação audiovisual contemporânea e publicou, em 2004, O documentário de Eduardo Coutinho: televisão,cinema e vídeo, já na segunda edição.

- Maurício Lissovsky - Historiador, roteirista e Professor da Escola de Comunicação da UFRJ. Autor de diversos artigos sobre cinema, fotografia e história.

dia 5
Satan's Tango (Hungria, 1994). Parte 1 - 251 min. Nos anos 80, habitantes de uma pequena vila na Hungria planejam partir após receber larga quantia em dinheiro. O suposto retorno do morto Irimias, porém, traz apreensão a todos, que suspeitam do uso do dinheiro.

dia 6
Satan's Tango (Hungria, 1994). Parte 2 - 165 min.

dia 7
Werckmeister Melodies (Hungria, 2000, 145 min). A ação se passa em pequena cidade no interior da Hungria. Apesar do frio, uma carcaça de baleia surge no meio da praça principal e reúne uma multidão de curiosos, vindos de todos os lugares do país. Isso causa distúrbio na ordem local, incerteza, ambição e abuso de poder.

Filmes exibidos em DVD, falados em húngaro, com legendas em inglês. Apresentação do professor Denilson Lopes. Entrada franca.

Local: Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ
Avenida Pasteur, 250 - 2º andar
Salão Moniz de Aragão
Palácio Universitário da Praia Vermelha
Rio de Janeiro - RJ - Tel: 2295 1595
www.forum.ufrj. br

O Escolhido

| Sin comentarios | Sin trackbacks

zicoplacar.jpg

55 anos Daquele que nasceu para nos salvar. Parabéns!

Ajuda com o Nero

| Sin comentarios

Não tenho o CD de instalação do Nero. Quer dizer, eu tinha, mas o infeliz que fez o último upgrade no meu computador o levou.

Assim, sempre baixo versões novas no e-mule, que invariavelmente apresentam problemas. Como agora. Não funciona mais, algum arquivo corrompeu e o Nero Vision foi para o espaço.

Claro, não há problema em revirar o e-mule novamente.

Ou conto com a bondade de alguém que me empreste o CD de instalação do Nero, para que eu possa copiá-lo. Direto no e-mail, porque às vezes demoro para olhar os comentários: pkrga@yahoo.com.

Por favor! Dependo dele para colocar vídeos no blogue (ok, não é o único programa que faz o serviço, mas ele é rápido e de boa precisão). E lembrando que sou do Rio de Janeiro. Ou quase isso.

Obrigado desde já!


O grande tenor Alfredo Kraus, em 1998. Ele morreria no ano seguinte.

Pourquoi me réveiller,
Ô souffle du printemps?
Pourquoi me réveiller
Sur mon front je sens tes caresses,
Et pourtant bien proche est le temps
Des orages et des tristesses!
Pourquoi me réveiller,
Ô souffle du printemps?
Demain dans le vallon
Viendra le voyageur
Se souvenant de ma gloire première.
Et ses yeux vainement
Chercheront ma splendeur.
Ils ne trouveront plus que deuil
Et que misère! hélas!
Pourquoi me réveiller,
Ô souffle du printemps?

Ária Pourquoi Me Réveiller, de Werther, ópera de Jules Massenet, com libreto de Edouard Blau, Paul Milliet e George Hartman.

werther.jpg
Werther sonha com Lotte. Na mesa, a pistola com que se suicidará.

30 de agosto de 1771.

Infeliz! Não és um tolo? Não te enganas a ti mesmo? Por que te entregas a esta paixão desenfreada, interminável? Todas as minhas preces dirigem-se a ela; na minha imaginação não há outra figura senão a dela, e tudo que me cerca somente tem sentido quando relacionado a ela. E isso me proporciona algumas horas de felicidade - até o momento em que novamente preciso separar-me dela! Ah, Wilhelm!, quantas coisas o meu coração desejaria fazer! Depois de estar junto dela duas ou três horas, deliciando-me com sua presença, suas maneiras, a expressão celestial de suas palavras, e todos os meus sentidos pouco a pouco se tornam tensos, de repente uma sombra turva meus olhos, mal consigo ouvir, sinto-me sufocado, como se estivesse sendo estrangulado por um assassino, meu coração bate estouvadamente, procurando acalmar os meus sentidos atormentados, mas conseguindo apenas aumentar a perturbação - Wilhelm, muitas vezes nem sei se ainda estou neste muito! Em outros momentos - quando a tristeza não me subjuga e Lotte me concede o pequeno conforto de dar livre curso às minhas mágoas, derramando lágrimas abundantes sobre suas mãos - tenho necessidade de afastar-me, de ir para longe, e então ponho-me a errar pelos campos. Nessas horas, sinto prazer em escalar uma montanha íngreme, em abrir caminho num bosque cerrado, passando por arbustos que me ferem, por espinhos que me dilaceram a pele! Sinto-me um pouco melhor então. Um pouco! E quando então, cansado e sedento, às vezes fico prostrado no caminho, no meio da noite, a lua cheia brilhando sobre minha cabeça, quando na solidão do bosque busco repouso no tronco retorcido de uma árvore, para aliviar meus pés doloridos, e então adormeço na meia luz, mergulhando num sono inquieto - Ah, Wilhelm!, nestas horas a solidão de uma cela, o cilício e o cíngulo de espinhos seriam um bálsamo para a minha alma sequiosa! Adeus! Somente o túmulo poderá libertar-me desses tormentos!

3 de setembro de 1772.

Às vezes não compreendo como outro possa amá-la, tenha o direito de amá-la, quando eu, somente eu a amo, com tanta ternura, tão profundamente, não pensando em outra coisa, querendo apenas esse amor, e não possuindo nada além dela.

19 de outubro de 1772.

Ah, esse vazio! Esse vazio terrível que sinto em meu peito! Quantas vezes penso: "Se pudesses uma vez, uma vez apenas, apertá-la contra esse coração, o vazio todo seria preenchido."

27 de outubro de 1772, à noite.

Sou tão afortunado, e o sentimento por ela absorve tudo; sou tão afortunado, e sem ela tudo se transforma em nada.

3 de novembro de 1772.

Deus sabe quantas vezes me deito à noite com o desejo, com a esperança de nunca mais despertar; e, de manhã, abro os olhos, vejo o sol novamente, e sinto-me infeliz. Quem me dera ser um homem de humor volúvel, que pudesse pôr a culpa no tempo, numa terceira pessoa, num empreendimento malsucedido - assim, ao menos, o insuportável fardo de contrariedade e irritação não pesaria tanto. Mas, ai de mim, sinto perfeitamente que a culpa é minha apenas - não, culpa não, mas sei que é em mim, no meu íntimo, que está a fonte de toda a minha desdita, assim como outrora lá se encontrava a fonte da minha felicidade. Então não sou mais o mesmo homem que, outrora, pairava na plenitude dos sentimentos, que a cada passo encontrava um paraíso, que possuía um coração capaz de abraçar amorosamente um mundo inteiro? Mas este coração agora está morto, dele não brotam mais os arrebatamentos de outros tempos, meus olhos estão secos, e meus sentidos, já não mais banhados e avigorados pelas lágrimas, enrugam temerosos minha fronte. Sofro muito, pois perdi a única coisa que dava encanto à minha vida: a força sagrada, vitalizadora, com a qual eu criava mundos em torno de mim. Essa força já não existe mais! Quando contemplo pela janela o sol matutino sobre a colina distante, rasgando as névoas que a envolvem, iluminando a pradaria silenciosa, quando vejo o riacho manso serpenteando até mim por entre os salgueiros desfolhados - nessas horas, essa natureza maravilhosa me parece fria e sem vida, como um quadro envernizado. Sua magia é incapaz de transmitir do coração ao cérebro a menor emoção, e todo meu ser encontra-se perante Deus como uma fonte exaurida, como um vazo vazio. Muitas vezes lancei-me de joelhos, pedindo a Deus algumas lágrimas, como um lavrador implora a chuva, quando sobre a sua cabeça o céu é plúmbeo, e ao seu redor a terra está ressequida.

Mas, ai de mim, não são as nossas preces impetuosas que fazem Deus conceder a chuva e o sol. E aqueles tempos, cuja lembrança me tortura, só eram tão felizes porque eu aguardava pacientemente o seu espírito, e recebia com o coração transbordante de gratidão todas as dádivas que ele derramava sobre mim.

22 de novembro de 1772.

Não posso rezar: "Permiti que ela seja minha!" No entanto, muitas vezes, é como se ela me pertencesse. Não posso rezar: "Dai-a a mim!", porque ela é de outro. Sofismo a minha própria dor, e se não procurasse me controlar eu produziria toda uma ladainha de antíteses.

26 de novembro de 1772.

Às vezes digo a mim mesmo: teu destino é único. Considera os outros felizes, pois nunca ninguém foi torturado como tu. Depois, leio algum poeta dos tempos antigos, e é como se eu estivesse olhando dentro do meu próprio coração. Sofro tanto! Ah! Será que, antes de mim, terá havido algum homem tão infeliz quanto eu?

6 de dezembro de 1772.

Como a sua imagem me persegue! Ela toma conta de toda minha alma, quer esteja desperto, quer sonhando. Aqui, quando fecho os olhos, aqui, atrás da minha fronte, onde se concentra a visão interior, encontram-se os seus olhos negros. Exatamente nesse lugar! Não sei como exprimir-te isso melhor. Quando fecho os olhos, eles estão lá; descansam diante de mim, em mim, como um mar, como um abismo, preenchendo todo o meu sentir.

O que é o ser humano, o tão decantado semideus! Não lhe faltam as forças precisamente quando delas mais necessita? Quando ele se enche de entusiasmo na alegria, ou mergulha na dor, não é refreado em ambos os estados de espírito, não é reconduzido à consciência fria e indiferente, justo no momento em que desejava ardentemente perder-se na plenitude do infinito?

Textos de Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Johann Wolfgang von Goethe.

Sobre este archivo

Esta página es un archivo de las entradas de março 2008, ordenadas de nuevas a antiguas.

fevereiro 2008 es el archivo anterior.

abril 2008 es el siguiente archivo.

Encontrará los contenidos recientes en la página principal. Consulte los archivos para ver todos los contenidos.