Mar 162009
 

O Enigma de Kaspar Hauser, 1974, de Werner Herzog


O Enigma de Kaspar Hauser, de Werner Herzog.

Começou hoje o julgamento de Josef Fritzl, na cidade de Sankt Poelten, Áustria. Ele se declarou culpado de incesto, sequestro e estupro – mas inocente das acusações de assassinato e de escravidão.

Para relembrar o caso: ano passado, Josef Fritzl foi preso, depois de manter a filha – bem como três com sete filhos que teve com ela – em cárcere privado, no subsolo de sua propriedade em Amstetten.

Assim que veio à tona, a história de Elisabeth Fritzl e dos filhos trancafiados no porão de casa me lembrou a de Kaspar Hauser, que em 26 de maio de 1828 apareceu nas ruas de Nuremberg, Alemanha. Às autoridades locais, Hauser disse que passou a vida inteira em quarto escuro, de 2m x 1m, onde havia apenas a cama em que dormia e o cavalo de madeira com que brincava. Todas as manhãs, encontrava água e comida na soleira da porta, deixadas pelo homem que o manteve preso e que o ensinou a ler, a escrever e que o introduziu à fé cristã.

Já no século XX, o psiquiatra Karl Leonhard(1904 – 1988) a respeito do caso, afirmou que:

If he had been living since childhood under the conditions he describes, he would not have developed beyond the condition of an idiot; indeed he would not have remained alive long. His tale is so full of absurdities that it is astonishing that it was ever believed and is even today still believed by many people

Talvez ele mudasse de opinião após conhecer “O Monstro da Áustria”.
Em 1974, Werner Herzog levou às telas (cujo título em alemão é Cada Um por Si e Deus contra Todos), com Bruno S. no papel principal. O filme ganhou o Grande Prêmio do Júri, o Prêmio da Crítica e Prêmio do Júri Ecumênico no Festival de Cannes – a Palma de Ouro acabou com Chronique des Années de Braise, de Mohammed Lakhdar-Hamina.

Remete, pela abordagem do tema, à Eu, Pierre Rivière, que Degolei Minha Mãe, Minha Irmã e Meu Irmão, livro de Michel Foucault sobre camponês que, na França do século XIX, justifica que assassinou a família para defender a honra do pai.

Ambos, filme e livro, dissecam a emergência das ciências que catalogam e regulam o corpo humano. Kaspar Hauser se submete a exames físicos e clínicos, testes psiquiátricos (a magnífica sequência das perguntas de lógica e de raciocínio) e procedimentos burocráticos, enquanto Pierre Rivière – apesar da confissão sensata e muito bem escrita – tem a sanidade a inteligência postas em questão por médicos, advogados e juízes nos tribunais.

Não por acaso, Werner Herzog encerra o filme com a autópsia de Kaspar Hauser: a ciência do século XIX tenta descobrir, no corpo do personagem principal, os motivos de tão singular comportamento (causa-consequência: vale lembrar que os folhetins, que se estruturam sob o par ação e reação, nascem no mesmo período). E, supostamente, encontram-no no cérebro, aberrante em relação ao homem “normal”.

Normatizar o corpo, não apenas do indivíduo, como também da sociedade. Werner Herzog capta as transformações do século XIX – quando a loucura vira caso de hospício e as diferenças perdem espaço – especialmente na figura mesquinha do pequeno burocrata que tudo anota, concordando com os médicos ou com seus superiores.

A burocracia não foi “a” ciência dos séculos XIX e XX, que perpassou todas as outras, como aponta Max Webber?

Link para baixar o filme no Pirate Bay. Som original em alemão com legendas em inglês (fácil achar em português, vai no Open Subtitles).

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