Sep 052009
 

“Peço-lhe perdão”, escrevia Nastenka. “Suplico-lhe de joelhos que me perdoe. Enganei-o e enganei-me a mim própria. Era um sonho, um fantasma… Hoje sofri por si mil mortes. Perdão! Peço-lhe perdão!…

“Não me censure, pois não mudei fosse o que fosse quanto a si. Disse-lhe que o amaria e continuo a amá-lo, faço mais do que amá-lo. Meus Deus, se pudesse amar-vos a ambos ao mesmo tempo! Se o senhor fosse ele! Se ele fosse o senhor!” Esta frase atravessou-me o cérebro. São as tuas próprias palavras, Nastenka, que me vêm à memória.

“Deus é testemunha daquilo que eu gostaria de fazer agora por si! Sei que está mergulhado no acabrunhamento e no desgosto. Causei-lhe mal, mas, quando amamos, lembramo-nos das ofensas? Ora, o senhor ama-me, não é verdade?

“Obrigada, sim, obrigada por esse amor! Ele está impresso na minha memória como um sonho delicioso, daqueles que recordamos muito tempo depois de termos já despertado; porque recordarei eternamente o instante em que tão fraternalmente o senhor me abriu o seu coração e em que tão magnânimamente aceitou a oferta do meu coração magoado, para o conservar, acalentar e proteger… Se me perdoar, a sua recordação será erigida por mim num sentimento eterno e nobre que nunca mais se apagará da minha alma… Conservarei essa recordação, ser-lhe-ei fiel, não o trairei, não trairei o meu coração: ele é demasiado constante para que isso possa suceder. Ainda ontem, como viu, ele voltou tão depressa à posse daquele a quem para sempre pertence.

“Voltaremos a encontrar-nos, o senhor virá a nossa casa, não nos abandonará, será perpetuamente meu amigo, meu irmão… E quando me vir, dar-me-á a sua mão… sim? Dar-ma-á, pois ter-me-á perdoado, não é verdade? Continuará a amar-me como até aqui?

“Sim, ame-me, não me abandone, pois eu amo-o de tal maneira neste instante, porque sou digna do seu amor, porque eu o mereço… meu querido amigo! Casamos na próxima semana. Ele continua apaixonado, nunca me esqueceu… Não se zangue por lhe falar dele. Quero que o conheça; será amigo dele, não é verdade?

“Perdoe-me! Recorde e ame a sua Nastenka.”

(Noites Brancas, de Fiódor Dostoiévski).

- Encontrou o amor, a glória, a fortuna… Não é isso a felicidade?
- No entanto, concordará que tudo é muito triste.
- Mas, meu amigo, a felicidade não é alegre.

(O Prazer, de Max Ophüls).

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