May 142010
 

Max Ophüls era judeu. Nasceu Max Oppenheimer em Saarbrücken, Alemanha. Quando Hitler ascendeu ao poder, emigrou – primeiro para Itália e Holanda, depois para a França, onde se estabeleceu. Deixou obras-primas pelo caminho: Die Verliebte Firma, La Signora di Tutti, Werther, Sem Amanhã.

Os nazistas, porém, teimavam em se expandir. Após De Mayerling a Sarajevo (sobre os eventos que levaram à Primeira Guerra Mundial), e com a iminente invasão da França pelas tropas alemãs, Ophüls se mudou outra vez, para os EUA.

Hollywood recebia de braços abertos, desde 1933, cineastas europeus que fugiam do avanço nazista (da mesma forma que o país abrigava escritores, cientistas, intelectuais). Fritz Lang, Jean Renoir, Robert e Curt Siodmak, Anatole Litvak, René Clair, Julien Duvivier – entre outros -, todos, com mais ou menos sucesso, adequaram-se ao Studio System e voltaram ao trabalho.

Max Ophüls, no entanto, apenas dirigiu seu primeiro filme americano em 1947, depois de sete anos de projetos infelizes. Ninguém, em Hollywood, parecia disposto a arcar com os longos planos-sequências e com os intrincados movimentos de câmera do cineasta.

Felizmente, Douglas Fairbanks Jr. estava. Filho do grande astro do cinema mudo (e co-fundador da United Artists), ele escreveu e produziu The Exile como veículo pessoal, a fim de de se colocar à altura da memória do pai. Mas Ophüls transforma o filme em outra saga de abnegação feminina, em outro conto sobre a impossibilidade do amor frente aos acontecimentos.

1660. Os “Round Heads” de Oliver Cronwell perseguem Charles Stuart, exilado na Holanda. Para se esconder dos puritanos que desejam assassiná-lo, o rei católico se refugia na fazenda/estalagem de Katie, onde trabalha incógnito.

Fairbanks Jr. pula sobre telhados, duela com floretes e escala moinhos. Mas as sequências de aventura, embora convincentes e bem encenadas, não se comparam à ambientação que Ophüls imprime aos planos. Seja por restrições financeiras, seja para liberar a câmera, o bom e velho Max filma em estúdio, com cenários declaradamente fakes, iluminação soturna e muita profundidade de campo – impossível não associal The Exile ao Macbeth de Orson Welles, sobretudo porque ambos datam do mesmo período (o primeiro é de 1947; o segundo, de 1948). Ophüls, contudo, também antecipa o episódio Maison Tellier de O Prazer, nos breves momentos em que Charles e Katie se divertem na fazenda ensolarada: a oposição entre o idílio campestre e vida urbana sufocante.

Em The Exile, Ophüls movimenta a câmera como jamais fizera. Dois exemplos:

- Logo na primeira sequência, mensageiro chega com notícias da Inglaterra. Ele atravessa a cidade, cruza o pátio principal, a ponte, entra no prédio onde se encontram os partidários do rei, sobe as escadas. A câmera o acompanha lateralmente, até que outro personagem entra em quadro para anunciá-lo. Ophüls, então, detém-se nele. Vários outros surgem na tela, com o corre-corre do evento, e a câmera não se furta de mostrá-los, ainda em plano-sequência. Corta-se apenas quando Charles Stuart finalmente aparece.

- Charles duela com o Coronel Ingram (que Cromwell encarregou se assassinar o rei), no moinho. Ambos saem de quadro… e a câmera não os acompanha. A tela permanece vazia por longos segundos, à espera de que eles voltem! Ainda hoje, verdadeira heresia.

No fim, Cromwell e a República são derrotados, e a Câmara dos Comuns pede o retorno do agora Charles II, rei da Inglaterra, Escócia, Gales, Irlanda e França. No entanto, para subir ao trono, Charles deve renunciar à Katie: sua vida pertence ao país e aos súditos, e o casamento se dá pelos interesses do Estado, não por amor. Enquanto saúdam o rei a caminho do navio que o levará de volta à Grã-Bretanha, Katie sai de cena, sozinha, dentro do quarto.

The Exile, outra vez, ecoa Orson Welles. Charles se torna rei, mas perde Katie, o amor, a alma. É o “peso da coroa”, que destrói quem a usa, nas palavras de Henrique IV para o filho, em Chimes of Midnignht.

The Exile, 1947, de Max Ophüls –

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