Sep 012010
 

Jukti, Takko Aar Gappo, 1974, de Ritwik Ghatak

Nilkantha, autor de teatro e intelectual alcoólatra à beira da morte, viaja por Bengala a fim de reencontrar a esposa e o filho, que o abandonaram. No caminho, refugiada de Bangladesh, escritor fracassado, professor de sânscrito miserável e sindicalista sem emprego passam a acompanhá-lo.

Jukti, Takko Aar Gappo (Razão, Debate e Uma História) é o último longa-metragem de Ritwik Ghatak, pai de Nouvelle Vague indiana, que morreria em 1976, aos 50 anos. Ao mesmo tempo alegoria política, auto-biografia e paródia, Jukti, Takko Aar Gappo continua o doloroso lamento sobre a partilha de Bengala entre Índia e Paquistão (depois Bangladesh), que Ghatak iniciou em Meghe Dhaka Tara (1960), Komal Gandhar (1961) e Subarnarekha (1965).

Durante a grande fome bengalesa, Ritwik Ghatak emigrou com a família de Daca, hoje em Bangladesh, para Calcutá, na Índia, em 1943. Com a independência do subcontinente indiano e a divisão de Bengala entre hindus e muçulmanos, jamais retornou à terra natal. Nilkantha Bagchi – - nome que remete à garganta azul de Shiva depois de engolir todos os venenos do mundo – é o alter-ego que o próprio Ghatak interpreta: como a personagem, o cineasta também se dedicou ao teatro (atuou, dirigiu e escreveu para a Associação de Teatro Popular Indiano), foi alcoólatra, sofreu de tuberculose e morou no exílio.

Nilkantha vaga por Bengala. A impossibilidade de voltar às suas raízes, ao idílio campestre da juventude, assombram-no. Entre o tocante e o patético, Nikantha acredita que Bangabala, a refugiada que o segue,  é a alma de seu país natal, e a chama somente de Bangladesh, verdadeira Terra Prometida, miragem que jamais se concretizará.

O grupo mambembe, composto dos perdedores e dos excluídos da sociedade hindu, encontra as diversas manifestações étnicas, culturais e políticas bengalesas, mas não as compreende. Nikantha as observa perplexo, como se fossem de mundo que lhe é inalcançável, e com profundo descrédito – o belíssimo diálogo, na floresta, com o guerrilheiro comunista, sobre a luta de classes e Karl Marx.

Claro que a viagem, desde o início, fracassaria. Assim como a esposa não volta para Nikantha, Bengala igualmente permanece dividida. Restam ao herói somente a incompreensão, a nostalgia e a morte.

Ritwik Ghatak jamais alcançou sucesso de público ou de bilheteria, pois se manteve à margem da indústria de cinema indiana. Teve enormes dificuldades para financiar seus longas-metragens (apenas oito em quase 25 anos). A partir de 1966, ele se tornou professor do Instituto de Cinema e Televisão da Índia. Entre seus alunos, encontravam-se os futuros cineastas Mani Kaul, John Abraham, Kumar Shahani, Saeed Akhtar Mirza e Adoor Gopalakrishnan, que depois propagariam a obra de Ghatak.

O Ocidente finalmente descobriu Ritwik Ghatak em 1977, quando lançou Nagarik (1952) nos cinemas. No último Festival de Cannes, exibiu-se pela primeira vez a cópia restaurada de Titash Ekti Nadir Naam (1973).

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