Sep 212010
 

Luzes na Escuridão, 2006, de Aki Kaurismäki

Incrível, mas Luzes na Escuridão estreou. Escrevi a crítica durante o Festival do Rio de… 2006!

Koistinen trabalha de vigia noturno, há três anos, mas pretende abrir sua própria empresa de segurança. Vez por outra, lancha no trailer da única mulher com quem troca breves palavras. Solitário, envolve-se com loira misteriosa que, a mando dos gângsteres locais, engana-o para facilitar o assalto à joalheria. Utilizando a estrutura narrativa arquetípica ao filme noir, Aki Kaurismaki, em Luzes na Escuridão, radicaliza o sentido fantasmagórico que o herói já possuía em O Homem Sem Passado, e transforma a cidade por onde ele vaga em imenso limbo, região de passagem, na qual convergem os sonhos e as esperanças do futuro e as frustrações e ausências do dia-a-dia.

Pobre diabo, fracasso absoluto que sobrevive graças a emprego miserável, acaba seduzido por mulher fatal, que o leva ao crime contra sua vontade, enredando-o na teia trágica do destino. Ponto de partida narrativo de Luzes na Escuridão, a premissa, cara ao cinema noir hollywoodiano dos anos 40 e 50, é, no entanto, esvaziada por Kaurismaki, menos interessado na evolução dramática dos acontecimentos do que na construção da atmosfera fantasmática em que os personagens existem, acentuando ainda mais o fatalismo que o filme herda de Lang, Siodmak, Mann, Kubrick, Huston e Preminger. Em Luzes na Escuridão, não há motivações psicológicas, explicações para a perseguição que Koistinen sofre dos bandidos (depois que participa involuntariamente do roubo, ele continua a ser humilhado – primeiro, sendo preso e, depois, espancado), ou mesmo quaisquer sinais de afetos e de sentimentos exteriorizados: restam apenas, ao contrário, indícios de vidas despedaçadas, que aguardam no vácuo a realização de sonhos belos, mudos e impossíveis.

Sonhos de amor e de contato humano. Se em O Homem Sem Passado, Kaurismaki proporciona ao desmemoriado a chance de recomeçar na cidade operária que o acolhe com carinho, sobretudo através do relacionamento com a funcionária do Exército da Salvação, em Luzes na Escuridão o diretor se mostra bem mais amargo e duro quanto ao herói: salvo as conversas esporádicas com a dona do trailer e com o menino negro, tão tênues e frágeis que não despertam simpatia ou identificação no espectador, Koistinen – ele próprio excessivamente mecânico, contido, desconfiado, frio e lacônico – encontra-se em mundo hostil, gélido e violento, no qual seus companheiros de trabalho o odeiam e seu chefe não o conhece após anos de serviço, em que repete todos os dias a mesma rotina maçante, onde a firma de segurança, quando olha para o futuro, torna-se miragem mais e mais longínqua e inalcançável. De menor apelo cômico e, em conseqüência, de maior dificuldade para se assimilar: lúgubre e soturno, Luzes na Escuridão aposta na abundância de tempos mortos, em que nada acontece ou nos quais a mesma ação ocorre várias e várias vezes. Koistinen anda para lá e para cá, janta em casa, come no trailer, lava pratos, sempre no vazio de significados e na expectativa de que estes finalmente lhe apareçam.

Kaurismaki lança-se na ousada proposta não de filmar os objetos definidos, mas o que há entre eles (parafraseando Jean-Luc Godard a respeito de Velázquez em O Demônio das Onze Horas), visto que Luzes na Escuridão procura justamente representar o “entre”, a passagem, da frustração à esperança, da realidade ao sonho, da morte à vida – sentimentos indefiníveis, ambientes incertos e nebulosos. Koistinen está em permanente movimento, a ponto de definir a prisão apenas como lugar de onde não se pode sair, assim como o filme trabalha sobretudo no crepúsculo ou na aurora, quando não se está nem de dia, nem de noite. De modo que se retorna a Velázquez, pintor do crepúsculo (segundo Jacques Aumont em O Olho Interminável), do momento em que as coisas parecem se fundir no ar, em que seus contornos se apagam e o olhar começa a perceber sonhos e fantasmas – o mundo de horror que o cineasta inventa para Koistinen, no qual o presente não passa de um fardo e o futuro, de uma ilusão, em que o trato com o próximo é marcado pela mesquinhez e pela crueldade e no qual não se pode fugir do próprio destino.

Quando menos se espera, porém, Aki Kaurismaki ainda reserva a Koistinen instante de indescritível beleza: a amiga que, ao final, ajuda-o, tocando-lhe as mãos. É como se, embora inverossímil, fosse absolutamente fundamental acreditar na redenção e na vida. A necessidade de ter fé, o tema de Luzes na Escuridão.

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