Sep 302010
 

A Empregada, 2010, de Im Sang-Soo

Crítica que escrevi para a Revista Moviola.

A pedagoga Eun-yi trabalha com a amiga em restaurante. Quando família riquíssima lhe oferece emprego de doméstica, sua vida se transforma: depois que o patrão a seduz e a engravida, as mulheres da casa a põem em cativeiro e forçam-no ao aborto.

Em A Empregada, Im Sang-Soo refilma o clássico homônimo de Kim Ki-Young, mas o subverte a fim de lhe preservar a essência. Na obra de 1960 – que o World Cinema Foundation restaurou -, Kim Ki-Young trata a heroína como alpinista social que, para se estabelecer na Coréia do pós-guerra, destrói a família do professor de música através do sexo e da luxúria. Já Im Sang-Soo, ao contrário, altera os sinais: Eun-yi (de quem Byeong-sik, a governanta, confirma reiteradamente a pureza das intenções e dos sentimentos) torna-se vítima – ou não, já que confessa à amiga que esperava os avanços de Hoon. Na versão de A Empregada para o século XXI, quando individualismo chega ao ponto em que ninguém liga para o desespero do outro, Eun-yi apenas diverte a família que, com poder e dinheiro, manipula-a ao seu bel prazer.

No entanto, assim como Kim Ki-Young, Im Sang-Soo também narra A Empregada como farsa. Ambos os filmes não passam de sátiras violentas e devastadoras das relações sociais coreanas, seja no imediato pós-Segunda Guerra Mundial, seja no início do século XXI. Se Kim Ki-Young usa a estrutura do melodrama e abusa das interpretações caricatas e da ironia, Im Sang-Soo trabalha com contrastes de claro / escuro, com movimentos elaborados de câmera pelos amplos espaços da mansão e com planos que beiram o absurdo (Byeong-sik em frente à lareira, ou a sequência final).

A obra de Im Sang-Soo revela as fissuras da sociedade coreana, tigre asiático que se desenvolveu rapidamente a partir dos anos 80. Em A Última Transa do Presidente e O Antigo Jardim, o cineasta se debruça sobre os custos: a ditadura que sufocou os movimentos sindicais e estudantis, censurou a imprensa e os artistas, perseguiu opositores. Em A Empregada, ele se volta para as consequências: o abismo econômico entre ricos e pobres, a desesperança que grassa entre as camadas baixas, o luxo e a frivolidade dos que detêm o poder, a submissão completa ao status quo. Não há exemplo melhor do que a governanta: Byeong-sik dedura às mulheres da casa que Eun-yi está grávida. Quando, no hospital, esta lhe pergunta os motivos, aquela responde: “porque está no meu sangue”.

Não basta que o poder se exerça de fora – é necessário que os dominados o introjetem, que o creiam parte da natureza.

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