Oct 022010
 

No Princípio, 2009, de Xavier Giannoli

Crítica que escrevi para a Revista Moviola.

Na sequência-chave de No Princípio, Paul / Philippe Miller questiona a prefeita Stéphane, na igreja destruída, sobre quem paga a restauração do falso ícone russo. Ela responde que, embora a imagem não seja verdadeira, todos na cidade a preservam. Ao levantarem a estrada A-61, sem que perguntem os antecedentes do desconhecido que acaba de chegar, os habitantes locais creem outra vez em si mesmos, assim como salvam o herói individualista da própria ausência de fé.

Em No Princípio (que se baseia em fatos reais), o escroque Paul, que vive de pequenos golpes, assume a identidade de Philippe Miller, engenheiro da CGI, a qual abandonou a construção da estrada A-61 há dois anos. A cidade acredita que ele retomará o projeto: se empresários negociam subornos a taxas de 15%, os trabalhadores veem a chance para o fim do desemprego e a volta da auto-estima.

Paul / Philippe Miller tenciona apenas roubar a propina dos empresários. No entanto, como lembra Stéphane, a vida não se planeja: ele ama a prefeita, toma o ladrão Nicolas – com quem se identifica – sob seus cuidados e estreita cada vez mais os laços com os habitantes (principalmente com os funcionários da obra). Xavier Giannoli quase nada revela sobre o misterioso herói. Sabemos que se casou e não fala com a ex-mulher, tem filho e já esteve na prisão. Por que não desaparece? Por que constrói a estrada, apesar dos riscos? Descobrem que Paul mentiu, que não há empresa GMTR, que a CGI nunca retomou a A-61, que os cheques são frios. Quais os motivos para continuar?

Talvez queira se integrar à comunidade – mas a população que livrou da bancarrota acaba por expulsá-lo. Embora Paul / Philippe Miller vise ao coletivo, permanece individualista (como os heróis de John Ford), o que o torna perigoso ao status quo. Tais quais Aguirre, Fitzcarraldo, Cobra Verde e outras personagens de Werner Herzog – caminhões e tratores que erguem poeira ou atolam na lama remetem demais a Lições na Escuridão e Encontros no Fim do Mundo -, ele é louco e visionário: nada o deterá na missão (quase religiosa) de terminar a estrada até 28 de novembro, quando a verdade será descoberta.

A A-61, porém, não é real? A economia da cidade se aqueceu, os empregos voltaram, todos se sentiram úteis novamente, Monika está grávida, Nicolas abandonou o crime. Paul / Philippe Miller finca a bandeira da GMTR na estrada e aguarda a polícia. Ele se orgulha de criar onde nada havia, de transformar mentiras em arte. Na CGI, quando lhe perguntam para onde vai a estrada, Paul / Philippe Miller responde: “Não sei. Para lugar nenhum”. Werner Herzog assinaria embaixo.

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