Oct 112010
 

A Autobiografia de Nicolae Ceaucescu, 2010, de Andrei Ujica

Crítica que escrevi para a Revista Moviola.

Fantástica reconstituição histórica dos anos de Nicolae Ceaucescu na Romênia, desde que tomou o poder, após a morte de Gheorghe Gheorghiu-Dej, como secretário-geral do partido comunista em 1965, até sua derrubada e execução em 1989.

Documentário que utiliza apenas imagens de arquivo – não há entrevistas ou narração em off para sustentar a narrativa -, A Autobiografia de Nicolae Ceaucescu resume, em três horas, a ditadura socialista que levou o país à beira do caos. Assistimos aos congressos do PCR e do Pacto de Varsóvia, aos aniversários da derrota fascista na II Guerra Mundial, às construções das grandiloquentes Avenida Socialista e Casa da República em Bucareste, às visitas do presidente aos mercados populares, às viagens internacionais e aos encontros de Ceaucescu com Richard Nixon, Jimmy Carter, Rainha Elizabeth II, Kim Il-Sung e Mao Tsé-Tung, ao apoio maciço que recebe onde vai.

A Romênia, único país que se relaciona com todo o bloco socialista e com as nações capitalistas, condena a Primavera de Praga. Nicolae Ceaucescu desponta como líder de idéias arejadas, popular, carismático, que negocia com o Ocidente e não se intimida com a URSS. Qual o motivo, pois, de sua queda, se há aplausos em toda parte?

O próprio título do filme já traz a resposta: A “Autobiografia” de Nicolae Ceaucescu. Andrei Ujica recorre somente a imagens e a discursos oficiais do ditador, a pegas de propaganda. Logo depois que abraça camponês, Ceaucescu olha para a câmera, em busca de aprovação. Antes de visitar padaria, a equipe do presidente arruma o local e instrui os comerciantes. O regime, que sobreviveu por quase 25 anos, ergueu-se sobre a farsa e a manipulação.

Ujica desmonta a mentira Ceaucescu na primeira e na última sequência do filme, que mostram o julgamento do ex-presidente (que nada tem a ver com justiça, mas com política). Quando finalmente não controla as imagens e se vê defronte ao massacre de Timisoara – bem como à acusação de que ordenou disparos contra mulheres e crianças em frente ao palácio presidencial -, Ceaucescu prefere o silêncio dos que consentem. Ele clama pela Assembléia Geral, que sempre esteve a seu lado. Os tempos, no entanto, mudaram.

Related Posts with Thumbnails

Related Images:

 Leave a Reply

(required)

(required)

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>