Oct 232010
 

O Homem que Matou o Facínora, 1962, de John Ford

Crítica que escrevi para a Revista Zingu!

“Quem foi Tom Doniphon?”, pergunta o editor do Shinbone Star ao senador Ransom Stoddard (James Stewart), que retorna à cidade para o funeral do misterioso personagem que jaz no simples caixão de madeira pago pela prefeitura. Sob a concordância da esposa Hallie (Vera Miles), Ranse volta ao passado, para antes da ferrovia, quando havia apenas o deserto e o Oeste sem Lei, a fim de desmitificar o embate contra Liberty Valance (Lee Marvin): não foi ele, mas Doniphon (John Wayne) – esquecido pela comunidade que defendeu – quem matou o ladrão e assassino que aterrorizava os habitantes ao sul de Picketwire, favoráveis à conversão do território em estado e contra o pasto aberto dos grandes pecuaristas.

John Ford, em O Homem que Matou o Facínora, trabalha novamente com a formação da identidade norte-americana, com o nascimento do país. “Go West, young man, and grow up with the country”: inspirado pela frase de Horace Greeley, símbolo do Destino Manifesto, Ransom Stoddard deixa a Costa Leste para exercer a advocacia em Shinbone. A Guerra Civil terminou, a Marcha para o Oeste está a caminho e as áreas virgens de fronteira estão repletas de oportunidades. Com a entrada em cena dos pistoleiros Liberty Valance e Tom Doniphon, desenha-se o conflito entre a nova onda de migrantes (pequenos proprietários, comerciantes, profissionais liberais) e os antigos pioneiros (cowboys, soldados, criadores de gado), cada qual partidário, respectivamente, da submissão à Lei e à Ordem e da força das armas.

Da mesma forma que O Homem Sem Rumo (Man Without a Star, 1955), de King Vidor, O Homem que Matou o Facínora se estrutura sobre a disputa do modelo civilizatório que prevalecerá no Oeste – o império da Lei, em que a comunidade se organiza politicamente através do sistema representativo e democrático (a seqüência em que o pai de Hallie, imigrante sueco, exibe orgulhoso a cidadania americana para votar); ou a manutenção dos pastos abertos, os quais favorecem os pecuaristas e impedem que as famílias de colonos cerquem suas terras para a agricultura. Se Dempsey Rae (Kirk Douglas), em O Homem Sem Rumo, escapa do arame farpado que avança pelas fazendas, Liberty Valance (cujo nome, em português, significa “liberdade”), em O Homem que Matou o Facínora, representa, ainda que degenerado, o último sopro do individualismo que alavancou os EUA: “self-made man”, ele dita as próprias ordens e não se adéqua aos padrões éticos e morais que a convivência social exige. Dempsey Rae e Liberty Valance são párias, marginais que, de início necessários para o estabelecimento do país, tornam-se desajustados sem lugar em meio ao projeto vitorioso de nação.

Vivendo no deserto, solitário, de passado desconhecido, Tom Doniphon, igualmente, mantém-se à parte da comunidade – antes que Sergio Leone e Don Siegel popularizassem o estranho sem nome de Clint Eastwood, marco do faroeste contemporâneo, Ford já lançara John Wayne na imagem fantasmática que, após garantir o reequilíbrio ao grupo social, vaga sem rumo e ao sabor dos quatro ventos, como Ethan Edwards, em Rastros de Ódio (The Searchers, 1956). É sintomático que o único companheiro de Doniphon, em O Homem que Matou o Facínora, seja o negro Pompey (Woody Strode), outrora escravo, também excluído e marginalizado pela sociedade devido à cor de sua pele. Em duas seqüências, John Ford promove o maior ataque do cinema ao racismo: na primeira, Pompey fica ao largo da assembléia que determina os representantes de Shinbone para a votação em Capitol City (mas, na democracia norte-americana, todos não nascem iguais?), enquanto na segunda o barman lhe avisa que deve se retirar do saloon.

Tom Doniphon, no entanto, ama Hallie, de sorte que lhe é impossível cortar totalmente os laços com a comunidade. Ele pretende trazê-la para o deserto, marginalizá-la – o quarto que ergue em sua casa, para o casamento que jamais ocorre. Tom está sempre no limite entre pertencer ou não ao mundo que se impõe: a chegada de Ransom Stoddard destrói qualquer possibilidade de congraçamento, na medida em que o advogado personifica a Lei que condena Doniphon ao exílio e, ao mesmo tempo, seduz Hallie (através especialmente da alfabetização, que se amalgama à cidadania na escola aberta por Rance em Shinbone) com a promessa do sonho americano. Entre a flor de cacto, selvagem e indomável, e a rosa, que nascerá apenas com a barragem do rio Picketwire, Hallie escolhe a representa Stoddard: Tom Doniphon, consciente da opção, sacrifica-se pela amada e pela comunidade, mata Liberty Valance, salva Rance e relega a si mesmo ao esquecimento.

Quando o senador Ransom Stoddard exige se recoloquem as botas, as esporas e as armas no corpo de Tom Doniphon, que jaz indigente no caixão fornecido pela prefeitura, ele dignifica todos aqueles que, nas sombras da História, realmente edificaram a nação. Em O Homem que Matou o Facínora, o réquiem do Oeste sem Lei se dá com honras de Estado.

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