Nov 152010
 

Na foto, da esquerda para a direita, em pé: Robert Mulligan, William Wyler, George Cukor, Robert Wise, Jean-Claude Carrière e Serge Silberman. Sentados: Billy Wilder, George Stevens, Luis Buñuel, Alfred Hitchcock e Ruben Mamoulian.

Só voltei a Los Angeles em 1972, para a apresentação de O Discreto Charme da Burguesia no festival. Reencontrei com prazer as calmas alamedas de Beverly Hills, a impressão de ordem e segurança, a amabilidade americana. Um dia, recebi um convite de George Cukor para almoçar, convite inesperado, pois eu não o conhecia. Serge Silberman e Jean-Claude Carrière, que estavam comigo, também foram convidados, bem como meu filho Rafael, que mora em Los Angeles. Também haveria, ele nos disse, “alguns amigos”.

Foi na realidade um almoço extraordinário. Primeiros a chegar à magnífica mansão de Cukor, que nos recebeu calorosamente, vimos entrar, semicarregado por uma espécie de escravo negro com músculos consideráveis, um velho espectro cambaleante, venda no olho, que reconheci como John Ford. Eu nunca estivera com ele. Para minha grande surpresa, pois julgava que ele ignorava até a minha existência, veio sentar ao meu lado num sofá e se disse feliz por me saber de volta a Hollywood. Contou inclusive que estava preparando um filme – “a big western”. Mas ele morreu alguns meses depois.

Nesse momento da conversa, ouvimos uns passarinhos se arrastando no assoalho. Virei e vi Hitchcock, que entrava na sala, todo róseo e roliço, e se dirigia para mim com os braços estendidos. Eu tampouco o conhecia, mas sabia que por diversas vezes havia me tecido elogios publicamente. Veio sentar ao meu lado, depois exigiu ficar à minha esquerda durante o almoço. Com uma das mãos em volta do meu pescoço, meio deitado no meu ombro, não cessava de falar de sua adega, de seu regime (comia muito pouco) e sobretudo da perna cortada de Tristana: “Ah, aquela perna…”.

Em seguida, chegaram William Wyler, Billy Wilder, George Stevens, Ruben Mamoulian, Robert Wise e um diretor muito mais jovem, Robert Mulligan. Passamos à mesa após alguns aperitivos, na penumbra de uma grande sala de jantar iluminada por candelabros. Em minha homenagem realizava-se uma estranha reunião de fantasmas que nunca haviam se reunido antes, todos falando dos “good old days”, os bons e velhos tempos. De Ben-Hur (1959) a Amor, Sublime Amor (West Side Story, 1961), de Quanto Mais Quente Melhor (Some Like It Hot, 1959) a Interlúdio (Notorious, 1946), de No Tempo das Diligências (Stagecoach, 1939) a Assim Caminha a Humanidade (Giant, 1956), quantos filmes em volta daquela mesa…

Depois da refeição, alguém teve a idéia de mandar chamar um fotógrafo da imprensa para tirar o retrato da família. A fotografia devia ser um dos collector’s items do ano. Infelizmente, John Ford não figura nela. Seu escravo negro voltara para pegá-lo no meio do almoço. Ele nos disse até logo debilmente e, esbarrando nas mesas, partiu para não mais nos rever.

Durante esse almoço, vários brindes foram erguidos. George Stevens, em especial, ergueu seu copo “àquele que, apesar de nossas diferenças de origem e crenças, nos reúne em torno dessa mesa”.

Levantei e aceitei brindar com ele, mas sempre ressabiado a respeito da solidariedade cultural, com a qual sempre se conta muito, eu disse: “Bebo, mas com um pé atrás”.

Meu Último Suspiro, Luis Buñuel, págs. 273-274.

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