Mar 212011
 

Com a polêmica do novo (velho) MinC de Ana de Hollanda sobre os direitos autorais – embora tenhamos outra, com Maria Bethânia, que envolve a Lei Rouanet e o CNIC -, lembrei-me do que talvez seja o maior clássico da pirataria cinematográfica: Nosferatu, Sinfonia do Horror, de F.W. Murnau.

Quando iniciou as filmagens de Nosferatu, em julho de 1921, F.W. Murnau já possuía Satanás, O Castelo Vogelöd e O Caminho na Noite no currículo. Foi a primeira e única produção da Prana Film, de Enrico Dieckmann e Albin Grau. Eles recrutaram Henrik Galeen, especialista em histórias góticas, para escrever o roteiro, baseado em Drácula, de Bram Stoker.

Mas a Prana Film não tinha dos direitos para a adaptação de Drácula. Prática recorrente em Murnau, aliás, que filmara Der Januskopf (que se perdeu) a partir de O Médico e o Monstro, sem os devidos créditos. Galeen, assim, mudou os nomes dos protagonistas: Drácula para Orlok, Jonathan Harker para Thomas Hutter e Mina para Ellen. A cidade de Whitby foi substituída pela fictícia Wisborg e, ao invés da Inglaterra vitoriana, tivemos a Alemanha de 1838. Suprimiram-se tramas e personagens secundários (ou nem tanto), como Van Helsing. Tudo para que Nosferatu (também não se usou a palavra “vampiro”) não se confundisse com o romance de Bram Stoker.

Claro que a garibada não enganou ninguém, sobretudo Florence Stoker, viúva e herdeira de Bram Stoker. Com apoio da British Incorporated Society of Authors (a Abramus ou o Ecad da Inglaterra), ela processou Murnau e a Prana Film pela violação dos direitos autorais e, após três anos, ganhou: em 1925, a justiça ordenou que todas as cópias e o negativo de Nosferatu, Sinfonia do Horror fossem destruídos (passaram-se 90 anos e os métodos continuam iguais).

Graças à fúria assassina de Florence Stoker – que depois vendeu os direitos de adaptação para a Broadway e para Hollywood -, não existe mais o negativo original de Nosferatu. A partir das poucas cópias que escaparam da fogueira, a Cinemateca de Bolonha restaurou, na década de 1990, o filme que consagrou o diretor (que ainda lançaria as obras-primas Terra em Chamas e Fantasma em 1922!).

As contribuições (ou contrabandos?) de Nosferatu para a mitologia de Drácula já aparecem no próprio título, que se tornou sinônimo para vampiro. Foi igualmente o clássico de Murnau o primeiro a transformar Renfield no agente imobiliário que emprega Harker – no romance, ele é apenas o lunático preso no hospício.

As imagens do castelo em ruínas e das sombras de Orlok nas paredes, dos camponeses amedrontados com a noite, dos ratos que acompanham o vampiro, do navio que chega ao porto após a tempestade (e do Conde que se ergue do caixão para matar os tripulantes), da fuga de Hutter / Harker pela floresta e do sonambulismo de Ellen / Mina também vieram de Nosferatu e se repetiram em quase todas as adaptações que se seguiram (inclusive a de Francis Ford Coppola, em teoria a mais fiel ao romance de Bram Stoker).

Porém, Murnau guardou sua maior criação para o final: após beber o sangue de Ellen, Orlok morre com os raios de sol. Não há, em Stoker ou na literatura anterior sobre vampiros, qualquer referência ao tema. Mesmo no roteiro de Henrik Galeen, a luz do dia não mata Nosferatu. O mito se deve única e exclusivamente ao diretor, que o inventou para a última sequência do filme.

F.W. Murnau, o primeiro que usou o sol contra vampiros!

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