Feb 252008
 


O Diabo Veste… 4 Oscars. Justíssimo, o melhor ganhou.

Continuo vivo, ressuscitei ou estou no além túmulo, psicografado pelo Machado de Assis. Vamos ao Oscar.

Figurinos: Elizabeth, A Era de Ouro

A Academia mostrou outra vez sua predileção por roupas grandes e afetadas. Quanto maior a saia (e se vier acompanhada de corpete, anáguas, etc), mais chances de Oscar. Sweeney Todd e Desejo e Reparação eram melhores.

Animação: Ratatouille

Barbada. Talvez seja a melhor animação da Pixar. Sem ter visto ainda Juno, suspeito que Ratatouille podia muito bem ter levado roteiro original.

Maquiagem: Piaf, Um Hino ao Amor

Transformaram a belezura Marion Cotillard na feiosa (com perdão ao talento da cantora, inquestionável) Edith Piaf. Oscar adora caracterizações de personageis reais. E os concorrentes não eram lá essas coisas.

Efeitos visuais: A Bússola de Ouro

Surpreendente e, por enquanto para mim, inexplicável. Os efeitos digitais de A Bússola de Ouro apenas simplificam aqueles vistos em O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia. Mundo de fantasia por mundo de fantasia, Piratas do Caribe: No Fim do Mundo era bem superior. E, embora também ache Transformers (como A Bússola de Ouro), um lixo, pelo menos havia aquela carnavalização de carros tresloucados.

Direção de arte: Sweeney Todd

Não se pode dizer que foi injusto. Afinal, a recriação dark e claustrofóbica da Londres vitoriana por Dante Ferreti (cracaço) dá alma a Sweeney Todd. No entanto, prefiro o trabalho de Jack Fisk em Sangue Negro. Será que Nestor Almendros permanecerá como o único colaborador de Terrence Malick a ganhar o Oscar?

Ator coadjuvante: Javier Bardem (Onde Os Fracos Não Têm Vez)

Inquestionável. É preciso enxergar as nuances da atuação de Bardem, que se transforma ao longo do filme, de onipotência primária a igualmente vítima das circustâncias e do estado de violência do mundo. Mas não custa lamentar a má sorte de Casey Affleck, cuja performance – de ator principal, não de coadjuvante – merecia o prêmio.

Curta-metragem: Les Mozart des Pickpockets

Não vi nenhum dos indicados. Mas pelo menos ganhou o curta com o título mais legal.

Curta-metragem de animação: Peter and the Wolf

Numa categoria em que o belíssimo Moya Lyubov, de Aleksandr Petrov, estava indicado, suspeito de injustiça! Curiosamente, Peter and the Wolf e Madame Tutli-Putli são os únicos a que não assisti. I Met the Walrus e Até os Pombos Merecem o Céu, que passaram no Anima Mundi em 2007, são bem fracos.

Atriz coadjuvante: Tilda Swinton

Ok, depois de errar quase todos os prêmios técnicos, finalmente acertei uma aposta! Era a categoria mais equilibrada e, tirando a garota, todas tinham chances. Claro que Cate Blanchett deveria ter levado – é a melhor atuação do ano, fácil -, mas ninguém viu I’m Not There. Tilda Swinton está ótima em Conduta de Risco, e era a única chance verdadeira de Oscar para Conduta de Risco, filme que os membros da Academia adoram.

Roteiro adaptado: Onde Os Fracos Não Têm Vez (Joel e Ethan Coen)

Joel e Ethan Coen ganharam todos os prêmios pré-Oscar pela adaptação do romance de Cormac McCarthy. Não havia concorrentes a altura – mesmo Paul Thomas Anderson, que não sabe muito bem como encaixar as duas metades tão diferentes de Sangue Negro.

Edição de som, Mixagem de som e Montagem: O Ultimato Bourne

Também ainda não vi O Ultimato Bourne. Filipe Furtado diz maravilhas dele, e acredito. Greengrass tem melhorado a cada filme. Quanto aos prêmios, era mesmo o favorito em montagem. Mixagem de som me surpreendeu, pensei que Onde Os Fracos Não Têm Vez levaria. E edição de som, para mim, era barbada que daria Transformers. O mais barulhento (quase) sempre vence. Michael Bay domina essa categoria há anos!

Atriz: Marion Cotillard (Piaf, Um Hino ao Amor)

E uma nova musa nasceu. Depois de Sofia Loren em 1961, com Duas Mulheres, Marion Cotillard é a segunda atriz em papel que não fala inglês a ganhar o Oscar. Ela é belíssima – como mostra sua presença no palco -, e um conjunto de fatores a ajudaram na vitória: transformação física para viver a personagem, cantar, interpretar uma feiosa, sofrer feito uma condenada ao longo do filme. A Academia adora!

Filme estrangeiro: The Counterfeiters (Áustria)

Bom, a Academia tinha Mikhalkov e Wajda para premiar. Bodrov tem lá sua importância no antigo cinema soviético, e Joseph Cédar ganhou direção em Berlim ano passado. E o Oscar foi para o mais improvável. Ok, é sobre o Holocausto…

Canção: Once (Falling Slowly)

Era, de longe, a melhor. E a compositora é uma graça.

Fotografia: Sangue Negro (Robert Elswit)

A categoria mais forte do Oscar. Três trabalhos brilhantes: O Escafandro e a Borboleta, Sangue Negro e Onde Os Fracos Não Têm Vez (O Assassinato de Jesse James possui belíssimos momentos, com outros de pura afetação). Pela contenção absurda dos movimentos de câmera – parece que não há nenhum fora do lugar -, pelo uso das sombras e do claro e escuro para criar o ambiente fantasmagórico e incerto por onde vagam os personagens, pelo scope que potencializa a vastidão do espaço e do horizonte, meu Oscar iria fácil para Roger Deakins e para Onde Os Fracos Não Têm Vez. Contudo, apesar da mais complexa, também era a mais sutil das fotografias – Sangue Negro, por carregar mais nas tintas, acabou levando.

Trilha sonora: Desejo e Reparação (Dario Marianelli)

Era o único Oscar que Desejo e Reparação podia levar. Das trilhas que disputavam o prêmio, talvez até fosse a melhor (não gosto da de O Caçador de Pipas, e não lembro da de Conduta de Risco). Agora, sejamos francos: a melhor do ano, disparada, era a de Sangue Negro, composta por Jonny Greenwood.

Documentário curta-metragem: Freeheld

Claro que não vi nenhum dos curtas que disputavam. Mas ganhou o da Guerra do Iraque, novidade!

Documentário: Taxi to the Dark Side

Já disse que quase assisti a Taxi to the Dark Side no Festival do Rio? Maldito porteiro que não me deixou entrar, vá para o quinto dos infernos!

Roteiro original: Juno (Diablo Cody)

Não havia como perder. Único Oscar que Juno levaria – a maior bilheteria dentre os indicados. E a história de vida da moça é sensacional. De ex-stripper a ganhadora do prêmio máximo do cinema. Será que Bruna Surfistinha segue o mesmo caminho? E teria Diablo Cody passado pelo teste do sofá?

Ator: Daniel Day-Lewis (Sangue Negro)

Ainda não vi Viggo Mortensen. Day-Lewis era favorito, e sua vantagem está na intensidade com que se entrega ao papel (embora seu Daniel Planview me pareça muito similar a Bill the Butcher, e os personagens são bem diferentes). Eu, particularmente, prefiro Tommy Lee Jones, brilhante em No Vale das Sombras (e em Onde Os Fracos Não Têm Vez também). Mas repito o que disse em ator coadjuvante: Casey Affleck deveria ter vencido o Oscar de ator principal.

Direção: Joel e Ethan Coen (Onde Os Fracos Não Têm Vez)

Às vezes se argumenta, quando temos diretores / roteiristas: “ele escreve melhor do que dirige”. Bom, não é o caso de três dos indicados nessa categoria. Os irmãos Coen acertam praticamente tudo – posição de câmera, os pouquíssimos travellings, ritmo, luzes, interpretações dos atores, composição dos personagens – e mereceram o Oscar. Para mim, inquestionável. Paul Thomas Anderson se segura bem mais do que o habitual, esquece aqueles movimentos enlouquecidos que vão do nada ao lugar nenhum, constrói finalmente um personagem forte (embora, a meu ver, tenha relegado demais as histórias familiares paralelas). E Tony Gilroy, a melhor surpresa. Pouco se fala dele, mas a força de Conduta de Risco está em sua direção: ele aposta em um mecanismo de ocultamento / revelação através da passagem entre o primeiro plano e o plano de fundo, ora destacando um e borrando outro, e vice-versa. O ponto culminante, o excelente final, em que a câmera se afasta e descobrimos a verdade sobre Michael Clayton. Mas o ano era mesmo dos irmãos Coen.

Filme: Onde Os Fracos Não Têm Vez

Por tudo que disse anteriormente, é claro que fiquei satisfeito com o Oscar para Onde Os Fracos Não Têm Vez. De fato, o melhor dentro os indicados, numa safra particularmente boa. Apenas Desejo e Reparação destoou dos demais – podia ser substituído por Sweeney Todd ou O Escafandro e a Borboleta.

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