Jul 232011
 

Eu me afastei do blog nos últimos meses, porque escrevi minha monografia para a UFF (finalmente). Infelizmente, retorno com a escandalosa censura de A Serbian Film – Terror Sem Limites pela justiça do Rio de Janeiro – crime inédito desde a Constituição de 1988, e primeira vez desde Je Vous Salue Marie, em 1984.

No Brasil, a ação contra A Serbian Film começou por meio da reportagem falsa e tendenciosa da Folha de São Paulo. Após exibições (sem problemas) no Fantaspoa e no Festival Lume, em São Luís, algum burocrata da Caixa Econômica Federal resolveu que o Riofan – mostra de filmes fantásticos, de terror, de quadrinhos – não constituía o espaço “apropriado” para o filme. Ora, o banco exerce seu recorte ao conceder, ou não, o patrocínio aos eventos. Se o Riofan se qualificou nos critérios que a Caixa estabeleceu, a responsabilidade pela seleção das obras recai exclusivamente sobre os curadores.

E vale lembrar que o filme recebeu classificação indicativa de 18 anos, assim como passaria na sala de cinema, para público específico.

Decisão absurda e injustificável, mas ainda no âmbito administrativo de uma instituição. Os organizadores do Riofan marcaram nova sessão de A Serbian Film para o Odeon, hoje, às 22h, graças ao Estação – que, lembro, já exibiu, no Festival do Rio, Um Vazio no Meu Coração, de Lukas Moodysson, que também não prima pela leveza.

Porém, eis que a juíza Katerine Jatahy Kitsos Nygaard concedeu liminar ao DEM, que proibiu a exibição e apreendeu a cópia de A Serbian Film. Quando o Estado sanciona a censura, precisamos nos revoltar.

O DEM (através do advogado Victor Travancas) já foi, em outras encarnações, o PFL e a Arena. De Democratas e Liberais, nunca tiveram nada. Democratas não censuram, liberais não atentam contra os direitos individuais. Mas da Arena, eles têm o DNA: que saudade da Ditadura, que tanto apoiaram!

A censura ao filme, na verdade, continua a marcha pela carolização do país. Nos últimos meses, assistimos a Jair Bolsonaro, às reações da bancada religiosa contra o kit anti-homofobia, à proibição da Marcha da Maconha (que o STF derrubou), aos ataques cada vez mais frequentes aos homossexuais, à intolerância até mesmo contra livros didáticos que ensinariam a falar “errado”.

Eu não veria A Serbian Film, pois não gosto do gênero – como detesto Um Vazio no Meu Coração. Sou contra a maconha, não sou homossexual e, como disse certa vez alguém no metrô, defino-me como “católico carnavalesco” – aquele cara que acredita, mas passa longe da igreja. A questão, no entanto, independe de crenças pessoais: não cabe a mim, ou a ninguém (muito menos ao Estado), determinar como o outro deve se comportar, ou o que deve ou não assistir.

Lutar pelo óbvio: Brasil laico e democrático. Está na Constituição.

Hoje, às 22h, no Odeon, haverá manifestação contra a censura de A Serbian Film. Eu não posso (tarde para mim), mas aos que puderem, compareçam!

Related Posts with Thumbnails

  2 Responses to “A Serbian Film e a Volta da Censura”

  1. Apenas o cidadão pode decidir se deve ou não assistir o que quer que seja. O judiciário não é detentor da verdade ou da moral, e sequer deveria possuir poderes para decidir pela população o que deve ou não ser assistido. É o primeiro passo para retornar com a censura. Primeiro, um filme de terror de baixo nível, em seguida, escândalos de corrupção. Acho que a roubalheira generalizada nos 3 poderes deveria ficar em evidência, mas parece que o tal filme chegou em um momento estratégico para maquiar a podridão do nosso sistema falido, ao mesmo tempo que deixa explícito que os brasileiros não tem o direito de decidir por conta própria, o que deve ou não ser visto. Transformam um filme em um espetáculo de fogos de artifício, com o intuito de desviar a atenção do povo para outro foco, que não o estelionato generalizado no legislativo.

  2. O engraçado, é que filmes como: Maladolescenza (1977) e Promiscuidade Os Pivetes de Kátia (1984), foram exibidos em pleno período de ditadura.
    Dá pra entender???

 Leave a Reply

(required)

(required)

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>