
Domingo tem Oscar, que assisto desde 1987, quando O Último Imperador fechou a banca e ganhou todos os prêmios que disputava ("clean sweep", como dizem os americanos). Este ano, contudo, será bem mais equilibrado, apesar do favoritismo de Guerra ao Terror.
Filme: Guerra ao Terror
Favorito dos críticos (ganhou New York, Los Angeles, Chicago, Boston e dezenas de outros prêmios pelos EUA), Guerra ao Terror sempre teve a bilheteria de Avatar à espreita. Porém, no caminho até o Oscar, amealhou igualmente os troféus dos sindicatos: PGA, DGA, WGA, ACE... Mesmo o produtor trapalhão, que pediu votos aos membros da Academia, e o processo aberto pelo sargento que se diz a fonte de inspiração do roteiro, não devem atrapalhar, pois a votação já se encerrou.
Diretora: Kathryn Bigelow (Guerra ao Terror)
Mesmo que Guerra ao Terror não ganhe, Kathryn Bigelow vence (parte da campanha de Avatar consiste em "divida seus votos, nós merecemos filme, Bigelow direção). Histórico: primeira diretora premiada.
Ator: Jeff Bridges (Coração Louco)
Interessante que, em categoria com nível tão alto, Jeff Bridges seja tão favorito. Pode-se argumentar a favor de qualquer dos indicados, na verdade. Bridges ganha porque o Oscar ama papéis de cantores losers - Robert Duvall e Sissy Spacek -, além da questão sentimental: são 40 anos de cinema e 5 indicações nas costas (as anteriores, por A Última Sessão de Cinema, Thunderbolt e Lightfoot, Star Man e The Contender).
Atriz: Sandra Bullock (Um Sonho Possível)
Sandra Bullock? Absurdo? Pense bem, qual das indicadas merece o Oscar? Possivelmente Helen Mirren (não vi The Last Station). As demais, todas fraquinhas, por filmes ruins. Um Sonho Possível ganhou rios de dinheiro nos EUA, é sobre a vida pra lá de sofrida de jogador do Baltimore Ravens... Sandra Bullock leva pelo retorno ao estrelato.
Ator coadjuvante: Christoph Waltz (Bastardos Inglórios)
Desde que venceu melhor ator em Cannes, Christoph Waltz é apontado como verdadeira barbada na categoria. O favoritismo só cresceu, de lá para cá, com a ajuda do próprio filme, que se saiu muito bem com a crítica e com o público nos EUA.
Atriz coadjuvante: Mo'Nique (Preciosa)
Mo'Nique ganhou todos os prêmios que disputou. Por que, não sei. Mas enfim: é a única chance de Preciosa não sair com as mãos abanando da festa.
Roteiro original: Mark Boal (Guerra ao Terror)
Páreo duro. Guerra ao Terror ou Bastardos Inglórios? Mark Boal levou o WGA, mas Tarantino não concorria. Em todo caso, pelo efeito manada (Oscars de filme, direção, montagem...), The Hurt Locker ganha.
Roteiro adaptado: Jason Reitman e Sheldon Turner (Amor Sem Escalas)
Apesar do quiprocó entre Jason Reitman e Sheldon Turner (Turner escreveu a primeira versão do roteiro, Reitman o reescreveu e quis ficar com o crédito inteiro para si, ambos quebraram o pau pela autoria), Amor Sem Escalas venceu o Globo de Ouro, o WGA e o Bafta. Talvez somente Preciosa o ameace.
Fotografia: Mauro Fiore (Avatar)
Oscar mais disputado da noite. A Fita Branca surpreendeu e ganhou o ASC Award. No entanto, desde A Lista de Schindler, nenhum filme em preto e branco conquista a Academia (O Homem que Não Estava Lá, favorito, perdeu para O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel). Os votantes, ao contrário do filme de Haneke, certamente assistiram a Avatar, que revolucionou o 3D no cinema. Porém, jamais fotografias em digital ganharam - talvez considerem a estatueta de efeitos visuais boa o suficiente para Cameron e Cia. Guerra ao Terror recebeu o Bafta e, se levar as categorias principais...
Montagem: Bob Murawski e Chris Innis (Guerra ao Terror)
Barbadíssima. Guerra ao Terror ganhou o simpático Eddie, prêmio do ACE (sindicato dos editores). E o Oscar adora filmes de guerra - se Falcão Negro em Perigo ganhou, imaginem as chances The Hurt Locker.
Direção de arte: Sarah Greenwood e Katie Spencer (Sherlock Holmes)
Avatar e Sherlock Holmes venceram o Art Directors Guild, respectivamente, como melhor filme de fantasia e melhor filme de época. A Academia, que não se deixou seduzir pelos designs de computador sobre telas azuis, ainda prefere os bons e velhos cenários reais, com objetos de verdade, palpáveis. A Londres Vitoriana ganha de Pandora.
Figurinos: Sandy Powell (A Jovem Rainha Vitória)
Sandy Powell e Colleen Atwood, que monopolizaram a categoria na última década, novamente na disputa. Mas, desta vez, enquanto Atwood não tem chances por Nine, Powell surge como grande favorita por A Jovem Rainha Vitória: não apenas já ganhou o prêmio do sindicato dos figurinistas, como a Academia, historicamente, prefere filmes de época, com roupas luxuosas (Elizabeth - A Era de Ouro e Maria Antonieta não me deixam mentir).
Trilha sonora: Michael Giacchino (Up - Altas Aventuras)
Michael Giacchino ganhou o Globo de Ouro, o Emmy e o prêmio de melhor compositor de trilhas do ano. Não é seu melhor trabalho (prefiro Os Incríveis e Ratatouille), mas leva, em parte, pelo conjunto de sua obra na Pixar. Oscar já chega tarde.
Canção: "The Weary Kind", de Coração Louco (Música e Letra de Ryan Bingham e T-Bone Burnett)
Simplesmente não tem adversários. "The Weary Kind", de Coração Louco, ganhou todos os prêmios da pré-temporada do Oscar. E a Academia se amarra em música folk / country.
Mixagem de som: Paul N.J. Ottosson e Ray Beckett (Guerra ao Terror)
Guerra ao Terror levou o Audio Cinema Society de melhor mixagem de som, que quase sempre emplaca no Oscar. Assim como montagem, a Academia costuma premiar filmes de guerra (quando não há musicais no páreo).
Edição de som: Christopher Boyes e Gwendolyn Yates Whittle (Avatar)
Avatar e Bastardos Inglórios dividiram os prêmios do sindicato dos editores de som. Parece improvável que, no Oscar, o filme de Tarantino bata as conquistas técnicas da produção de Cameron.
Efeitos visuais: Joe Letteri, Stephen Rosenbaum, Richard Baneham e Andrew R. Jones (Avatar)
Precisa comentar? Por mim, Avatar concorreria sozinho, dado o abismo em relação aos demais. Goste-se ou não do filme (estou no primeiro time), reconheça-se que James Cameron inovou nos efeitos visuais e na tecnologia 3D.
Maquiagem: Jon Henry Gordon e Jenny Shircore (A Jovem Rainha Vitória)
Os critérios da Academia, para maquiagem, são obscuros. Por que não Distrito 9? Dos que ficaram, ninguém viu O Divo. Star Trek, apesar do sucesso de bilheteria, não possui nada que se destaque, além das orelhas vulcanas de Spock. Resta o trabalho mais clássico e sutil de A Jovem Rainha Vitória, que já lhe rendeu o Bafta.
Animação: Up - Altas Aventuras
Up - Altas Aventuras tem indicações a melhor filme, roteiro original, trilha sonora e edição de som, além de animação. Sucesso de bilheteria, amado pela crítica... nenhuma chance de derrota aqui. Só lamento a ausência de Ponyo, do grande Hayao Miyazaki.
Documentário: The Cove
Bateu na trave! As Praias de Agnès ficou na pré-seleção. Ela merecia. The Cove ganhou a maioria dos prêmios da temporada pré-Oscar, é favorito. Mas, assim como filme estrangeiro, apenas os que assistiram a todos os indicados votam. Não se espante com surpresas.
Filme estrangeiro: O Segredo dos Seus Olhos (Argentina)
Foi-se o tempo em que o Oscar de filme estrangeiro captava o que de mais importante acontecia na produção cinematográfica internacional. Temos A Fita Branca (Palma de Ouro em Cannes), Um Profeta (Grande Prêmio do Júri, que acaba de vencer 9 César) e A Teta Assustada (Urso de Ouro em Berlim), que amealharam os mais importantes prêmios dos festivais europeus. Em teoria, Haneke seria favorito. Porém, como grupo muito restrito vota na categoria - que já provou, em anos recentes, seu conservadorismo (a vitória de A Partilha sobre Entre os Muros da Escola e Valsa com Bashir, por exemplo) -, O Segredo dos Seus Olhos deve ganhar.