Maurice Druon era um anjo!
Capítulo Onze. No qual Tistu resolve ajudar o Doutor Milmales.
Foi ao visitar o hospital que Tistu ficou conhecendo a menina doente.
O hospital de Mirapólvora, graças à generosidade do Sr. Papai, era um belo hospital, muito grande, muito limpo, e provido de tudo que fosse preciso para cuidar de um doente. As largas janelas deixavam entrar o sol, e as paredes eram brancas e luzidias. Tistu não achou que o hospital fosse feio; pelo contrário. No entanto ele sentiu... como explicá-lo... ele sentiu que alguma coisa muito triste ali estava escondida.
O Dr. Milmales, diretor do hospital, via-se logo, era um homem muito sábio e muito bondoso. Tistu achou que ele se parecia um pouco com o jardineiro Bigode, um Bigode que não tivesse bigodes e que usasse grossos óculos de tartaruga. E Tistu lhe disse o que pensava.
- A semelhnça deve ocorrer - respondeu o Dr. Milmales - de Bigode e eu termos uma tarefa parecida: ele cuida da vida das flores, eu da vida das pessoas. Mas cuidar da vida das pessoas era imensamente mais difícil; Tistu logo compreendeu, só de ouvir o Dr. Milmales. Ser médico era travar uma batalha ininterrupta. De um lado a doença, sempre a entrar no corpo das pessoas; do outro a saúde, sempre querendo ir embora. E depois, havia mil espécies de doenças e uma única saúde. A doença usava todo tipo de máscara para que não a pudessem reconhecer: um verdadeiro carnaval. Era preciso desmascará-la, desanimá-la, pô-la para fora, e ao mesmo tempo atrair a saúde, segurá-la, impedi-la de fugir.
- Você já esteve doente, Tistu? - perguntou o Dr. Milmales.
- Nunca, Doutor.
- Nunca mesmo?
Realmente, o doutor não se lembrava de que o tivessem chamado por causa de Tistu, enquanto Dona Mamãe tinha muitas enxaquecas e o Sr. Papai sofria às vezes do estômago. O criado Cárolo tivera uma bronquite no último inverno. Mas Tistu, nada de nada. Eis um garoto que desde o nascimento não sabia o que fosse varicela, angina, resfriado... Um caso raro de saúde perfeita!
- Eu lhe agradeço muito a lição que me deu, Dr. Milmales; ela me interessa muito - disse Tistu.
O Dr. Milmales mostrou a Tistu a sala onde se preparavam pequenas pílulas cor-de-rosa contra tosse, pomada amarela contra bolhas e pós branquicentos contra febre. Mostrou-lhe a sala onde a gente pode olhar através do corpo de uma pessoa como através de uma janela, para ver onde a doença se escondeu. E mostrou-lhe também a sala com teto de espelho, onde se cura apendicite e tanta coisa que ameaça a vida.
"Se aqui impedem o mal de ir adiante, tudo devia parecer alegre e feliz, pensava Tistu. Onde estará escondida a tristeza que estou sentido?..."
O Dr. Milmales abriu a porta do quarto da menininha doente.
- Vou deixar você aqui, Tistu. Venha depois até meu escritório.
Tistu entrou.
- Bom dia - disse ele à menininha doente.
Ela lhe pareceu muito bonita, mas extremamente pálida. Seus cabelos negros se desenrolavam pelo travesseiro. Teria mais ou menos a idade de Tistu.
- Bom dia - respondeu polidamente, sem mover a cabeça.
Seus olhos estavam pregados no teto.
Tistu sentou-se perto da cama, com o chapéu branco sobre os joelhos.
- O Dr. Milmales me disse que as suas pernas não andavam. Será que já melhorou no hospital?
- Não - respondeu a menina, sempre muito polida; - mas isso não tem importância.
- Por quê? - perguntou Tistu.
- Porque não tenho lugar nenhum para ir.
- Pois eu tenho um jardim - disse Tistu, para dizer qualquer coisa.
- Você tem muita sorte. Se eu tivesse um jardim, talvez sentisse vontade de sarar para passear entre as flores.
Tistu logo olhou para o seu polegar, pensando: "Se o problema é esse..."
Mas perguntou ainda:
- Você não se aborrece muito nessa cama?
- Não muito. Fico olhando o teto. Conto os buraquinhos.
"Flores seria muito melhor" - pensou Tistu. E se pôs a chamar interiormente: "Papoulas, papoulas!... Botões-de-ouro, margaridas, junquilhos!"
As sementes entraram pelas janelas, a não ser que Tistu as tenha trazido nos sapatos.
- Mas, em todo caso, você não se sente infeliz?
- Para a gente saber se é infeliz, é preciso primeiro ter sido feliz. Eu já nasci doente.
Tistu compreendeu que a tristeza do hospital estava escondida nesse quarto, na cabeça da menina. Ele também estava ficando triste.
- Você recebe visitas?
- Muitas. De manhã, antes do almoço, a Irmã Termômetro. Depois vem o Dr. Milmales; ele é muito bonzinho, conversa comigo e me faz um agrado. À hora do almoço, chega a Irmã Pílula. Depois, com a merenda, entra a Irmã Injeção Que Dói. E, por fim, vem o moço de branco, que acha que as minhas pernas estão melhor. Amarra uma cordinha em cada uma para que elas possam mover-se. Todos eles dizem que eu vou sarar. Mas eu prefiro ficar olhando o teto, que não me prega mentiras.
Enquanto ela falava, Tistu se tinha levantado e entrara rapidamente em ação em torno da cama.
"Para esta menina sarar, pensava ele, é preciso que ela deseje ver o dia seguinte. Uma flor, com sua maneira de abrir-se, de improvisar surpresas, poderia talvez ajudá-la... Uma flor que cresce é uma verdadeira adivinhação, que recomeça cada manhã. Um dia ela entreabre um botão, num outro desfaldra uma folha mais verde que uma rã, num outro desenrola uma pétala... Talvez esta menina esqueça a doença, esperando cada dia uma surpesa..."
O polegar de Tistu não tinha descanso.
- Pois eu acho que você vai sarar - disse ele.
- VocÇe também acha?
- Acho sim. Tenho certeza. Até logo!
- Até logo! - respondeu polidamente a menina doente. - Você tem sorte de ter um jardim...
O Dr. Milmales esperava Tistu atrás de sua grande mesa niquelada, repleta de livros.
- Então, Tistu - perguntou ele - que foi que você aprendeu? Que sabe de medicina?
- Aprendi - respondeu Tistu - que a medicina não pode quase nada contra um coração muito triste. Aprendi que para a gente sarar é preciso ter vontade de viver. Doutor, será que não existem pílulas de esperança?
O Dr. Milmales ficou espantado com tanta sabedoria num garoto tão pequeno.
- Você aprendeu sozinho a primeira coisa que um médico deve saber.
- E qual é a segunda, Doutor?
- É que para cuidar direito dos homens é preciso amá-los bastante.
Ele deu um punhado de caramelos a Tistu e pôs uma boa nota em seu caderno.
Mas o Dr. Milmales ficou ainda mais espantado no dia seguinte, quando entrou no quarto da menina.
Ela sorria: tinha despertado em pleno campo.
Narcisos brotavam em torno à mesa de cabeceira, os cobertores eram um edredom de pervincas, a grama crescia no tapete. E finalmente a flor, a flor em que Tistu se desvelara, uma esplêndida rosa, que não parava de se transformar, de abrir uma folha ou um botão, e que subia pela cabeceira da cama, ao longo do travesseiro. A menina já não olhava o teto; ela contemplava a flor.
De noite suas pernas começaram a mover-se. A vida era boa.